HÁBITOS E ATITUDES DE LEITURA DOS ESTUDANTES PORTUGUESES
1

Rui Vieira de Castro
Maria de Lourdes Dionísio de Sousa

Neste texto são apresentados alguns resultados de uma investigação de âmbito nacional que temos estado a desenvolver acerca das atitudes e hábitos de leitura dos estudantes portugueses dos ensinos básico e secundário.
Para este estudo, cuja realização foi apoiada pelo Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, foram definidos como objectivos principais:
- descrever algumas das principais características dos contextos críticos de socialização para a leitura experienciados pelos estudantes, designadamente, a família, a escola e o grupo de pares;
- identificar alguns dos aspectos principais das práticas de leitura desenvolvidas pelos estudantes, nomeadamente no que diz respeito aos seus objectivos, objectos, frequência e importância relativa no quadro das actividades de ocupação de tempos livres;
- caracterizar atitudes para com a leitura e os livros;
- comparar alguns dos dados obtidos em cada uma das dimensões antes referidas.
Neste texto estaremos confinados à apresentação de dados relativos à realização parcial de alguns dos objectivos previamente mencionados; referir-nos-emos designadamente:
- às atitudes para com a leitura manifestadas pelos estudantes inquiridos;
- ao estatuto da leitura entre as actividades de lazer;
- às práticas de leitura de jornais e revistas;
- às práticas de leitura de livros, nomeadamente, tipos preferidos, contextos privilegiados e frequência.

Uma radiografia incompleta
Este estudo tem vindo a ser realizado num tempo em que a leitura e, genericamente, a literacia2 se tornaram objecto de preocupação política; num tempo, também, em que correlativamente, e sem que tal suponha da nossa parte qualquer tentativa de estabelecimento de nexos de causalidade, é visível uma progressiva emergência desta problemática no campo científico; de facto, depois de um período de quase total ausência de trabalhos académicos neste âmbito, nos últimos anos, as questões relacionadas com os hábitos, as atitudes e as competências de leitura têm vindo a ocupar um lugar, não certamente central, mas ainda assim significativo, entre as preocupações de investigadores com diferentes inserções disciplinares e distintas orientações teóricas3.
Orientados por diferentes objectivos, adoptando metodologias diversas, seleccionando distintas amostras, estes estudos têm vindo a possibilitar a construção de uma radiografia dos leitores portugueses. Radiografia incompleta, porém, pois que alguns grupos e algumas práticas não têm sido, naturalmente em função dos objectivos dos investigadores, suficientemente considerados.
Comparemos, de forma abreviada, dois estudos que, pelo menos parcialmente intersectam a população que nos propusemos estudar, e cuja configuração permite sustentar a afirmação anteriormente feita.

Freitas & Santos (1992)
Alçada & Magalhães (1993)
Alguns objectivos - quem lê?
- o que é lido (livros, revis-tas, jornais)?
- qual é a frequência da leitura?
- quantos e quais livros são lidos?
- quem compra livros?
- qual é o lugar da leitura entre as escolhas culturais?
- quem lê entre os es-tu-dantes?
- quais são os livros que os jovens leitores preferem?
- qual é o lugar da leitura entre as acti-vidades de ocupação dos tempos livres?
- o que é que os professores e os pais fazem para promover o gosto pela leitura?
- quais são as atitudes dos pais para com a leitura?
- que fazem as autoridades locais para promover a leitura?
Metodo-logias - inquérito por questionário - inquérito por questionário
Amostra - dois mil sujeitos representando a população portuguesa letrada - estudantes (3982, princi-palmente do 1º e 2º ciclos de escolari-dade); - professores (1350, cerca de 50% dos quais do 1º ciclo); - 1055 respon-sáveis de bibliotecas escolares, das quais 37% do 1º ciclo; - 3470 pais e encarregados de educação; 210 Câmaras Municipais.
Alguns resultados resistência à leitura de livros, embora não resistência à leitura em geral;
correlação entre leitores fracos e baixos níveis de instrução, trabalho menos qualificado, pais com características similares, modos positivos de socialização primária
leitura significativa de jornais e revistas
a leitura de livros, revistas e jornais como modos menos privilegiados de ocupação dos tempos livres
atitudes positivas para com a leitura
leitura frequente de livros
banda desenhada e livros de aventuras como géneros pre-feridos

Um contributo para a caracterização dos leitores portugueses
O estudo por nós desenvolvido, tendo em conta a amostra seleccionada, constituída por estudantes dos diversos níveis de escolaridade, acaba por possibilitar o alargamento da caracterização dos leitores portugueses. Os dados preliminares que apresentamos neste texto foram obtidos através de um inquérito por questionário respondido por 1651 sujeitos, originários de todo o país, com a seguinte distribuição por sexo e ciclo de escolaridade:

Quadro 1
Distribuição dos sujeitos da amostra por sexo e ciclo da escolaridade

Ensino básico
Ensino
2º ciclo (F=538) 3º ciclo (F=596)
secundário
(F=517)
Rapazes
(F=769)
34,6% 36,9% 28,5%
Raparigas
(F=878)
30,8% 35,4% 33,8%
Total 32,5% 36,1% 31,3%

Embora estes valores correspondam a uma relativa sub-representação do 2º ciclo da escolaridade, é de notar o equilíbrio na distribuição pelos níveis de escolaridade, raras vezes encontrada em estudos anteriores. Se tomarmos a idade como variável, o grupo "de 10 a 12 anos" representa 29% da amostra, os estudantes com idades "de 13 a 15 anos" constituem 41,9%, enquanto os inquiridos com "mais de 16 anos" representam 29,1% do total. Esta distribuição constitui uma base que julgamos sólida para a obtenção de novas informações capazes de possibilitar uma caracterização mais ajustada das práticas de leitura da população estudantil portuguesa, bem como uma melhor compreensão dos processos de perdas e ganhos de leitores.

As atitudes para com a leitura
Aos estudantes inquiridos foi solicitada a indicação da sua atitude genérica para com a leitura, através do seu autoposicionamento numa escala que previa diferentes graus de adesão/rejeição àquele tipo de prática comunicativa. Os resultados obtidos são apresentados no Gráfico 1.


Gráfico 1
Atitudes para com a leitura

Em termos gerais, pode dizer-se que, para os estudantes inquiridos, a leitura é uma prática valorizada positivamente; do mesmo modo, que existe uma atitude claramente favorável para com a leitura que, no entanto, decresce à medida que se progride na escolaridade; de facto, se entre os estudantes do 2º ciclo do ensino básico são apenas 16,7% os que declaram "não gostar" de ler, essa percentagem é já de 30,2% entre os estudantes do ensino secundário.
Esta atitude para com a leitura que se pode qualificar como globalmente positiva é coerente com alguns resultados que obtivemos relativos às características dos contextos de socialização:
- no contexto da família, os adultos são descritos como tendo hábitos de leitura, embora mais de jornais e revistas do que de livros; são 67,5% os inquiridos que afirmam que os adultos com quem vivem costumam "todos" ou na "maior parte" ler jornais ou revistas; esta percentagem desce, porém, para 27% quando se trata da leitura de livros.
- um grande número de estudantes relata como frequente o hábito de oferecer livros no interior da sua família: 64,6% declaram que os adultos costumam oferecer-lhes livros "algumas vezes" ou "muitas vezes";
- 77,4% dos sujeitos afirmam "gostar" ou "gostar muito" que lhes sejam oferecidos livros;
- cerca de 65% dos inquiridos relatam que as situações em que, na sua infância, lhes foram lidas histórias pelos mais velhos tiveram lugar "algumas vezes" ou "muitas vezes";
- ao nível do grupo de pares, cerca de 60% dos estudantes disseram-nos que costumam falar, "algumas vezes" ou muitas vezes", com os seus amigos acerca daquilo que lêem;
- cerca de 51% dos inquiridos afirmam que, "algumas vezes" ou "muitas vezes", trocam materiais de leitura entre os seus pares. Se tivermos estes últimos dados em consideração, é de certo modo surpreendente que, quando analisamos as respostas acerca dos factores que, do ponto de vista dos próprios inquiridos, podem ter contribuído para a atitude positiva para com a leitura acima mencionada, encontremos uma desvalorização do "grupo de pares":


Gráfico 2
Factores que influenciaram as atitudes para com a leitura*

*valores obtidos a partir da indicação das duas razões tidas como mais importantes

Como se pode observar, as características pessoais são percepcionadas pelos inquiridos como o factor determinante da sua relação com a leitura, com mais de dois terços do total da amostra a referirem-nas nas suas respostas. Este factor é reconhecido como progressivamente mais importante à medida que os inquiridos se situam nos ciclos mais avançados da escolaridade. Em congruência, decresce o reconhecimento da importância dos diversos contextos de socialização considerados; a este propósito, é particularmente notória a quebra no reconhecimento da relevância dos contextos de socialização na passagem do grupo do "2º ciclo" para os grupos seguintes.

O papel da escola na promoção da leitura
Importa também referir a relativa desvalorização da escola como factor de condicionamento das atitudes para com a leitura, sobretudo entre os jovens dos ciclos iniciais. Estes resultados devem também ser lidos à luz daqueles que obtivemos quando inquirimos os estudantes acerca: (i) da frequência das intervenções explícitas dos seus professores orientadas para a promoção da leitura; (ii) dos seus comportamentos quando são aconselhados a ler livros; e (iii) das suas percepções relativas ao empenhamento das escolas na promoção da leitura.
Se, por um lado, as respostas obtidas a este propósito, testemunharam a preocupação dos professores com o desenvolvimento de hábitos de leitura (cerca de 80% dos estudantes disseram-nos que os seus professores costumavam aconselhá-los a ler "algumas vezes" ou "muitas vezes"), por outro lado, os estudantes, sobretudo aqueles dos níveis mais avançados, relataram que "nunca" ou "poucas vezes" seguiam aqueles conselhos (43,6%). Confrontados com a afirmação "A minha escola procura promover o gosto pela leitura", os sujeitos revelaram, no contexto de uma concordância genérica com este enunciado, uma avaliação progressivamente negativa acerca do papel da escola, como pode verificar-se no gráfico seguinte:


Gráfico 3
Opinião acerca da afirmação
"A minha escola procura fazer com que os alunos gostem de ler"

Este decréscimo de opiniões positivas acerca do papel da escola pode, do nosso ponto de vista, residir numa hipotética mudança das práticas escolares em que os inquiridos vêm a ser envolvidos e, em consequência, na frustração de expectativas previamente construídas. Deve dizer-se, entretanto, que 21,6% dos inquiridos referiu não ter uma opinião definida acerca do papel da escola na promoção da leitura, facto que não deixa de constituir um indicador interessante acerca do tipo de intervenção que a escola promove, ou melhor, não promove. Estes factos levam-nos, por outro lado, a considerar, nas práticas escolares, uma possível associação entre actividades explicitamente orientadas para a promoção da leitura e níveis mais elementares da escolaridade; este tipo de intervenção tenderia a perder importância à medida que os estudantes progridem na escolaridade, com a escola a não entender os estudantes mais avançados como leitores "em construção".

A leitura no quadro da ocupação dos tempos livres
A análise do estatuto da leitura entre os jovens passou, neste estudo, pela consideração do lugar desta prática no quadro das actividades de ocupação dos tempos livres que aqueles normalmente desenvolvem. Neste sentido, apresentámos aos inquiridos um conjunto de opções para os tempos de lazer, tendo-lhes sido pedido que estabelecessem prioridades; estas escolhas, esperávamos, revelariam a importância que os jovens de facto atribuem à leitura.

Estar com
10 a 1 2 anos

13 a 15
anos

16 anos
e mais
Total
Ver
tv/vídeo
19,6
13,9
11,8
14,9
Jogos de
vídeo
21,0
11,4
4,9
12,1
Ler
12,9
5,8
3,8
7,2
Fazer desporto
20,9
20,8
22,0
21,3
Estar c/
amigos
33,1
50,8
60,0
48,7

* considerámos aqui exclusivamente, nas diversas categorias, as referências como primeira opção

Surpreendentemente, se confrontarmos a valorização atribuída à leitura, em absoluto (Gráfico 2), com a sua valorização relativa no contexto dos diversos modos de ocupação dos tempos livres, a leitura passa a aparecer, de forma clara, como a actividade menos preferida, qualquer que seja o grupo considerado4.
O convívio no interior dos grupos de pares surge como modo privilegiado de ocupação do tempo livre, e como modo cuja relevância aumenta com a idade; por sua parte, a prática desportiva, tendo um lugar importante como forma de lazer, mantém essa posição independentemente dos grupos que se considere; as restantes modalidades apresentam uma característica comum - o seu interesse decresce com a idade dos sujeitos. Neste contexto, a leitura emerge como uma prática minoritária, constituindo em qualquer dos grupos e de forma diferenciada a actividade menos usual na ocupação dos tempos livres. Para além disso, e congruentemente com outros dados antes apresentados (ver Gráfico 2), verifica-se entre os estudantes dos grupos etários mais avançados um decréscimo muito acentuado da leitura como forma de ocupar o tempo livre.
Considerem-se, agora, os valores médios das diferentes categorias.


Gráfico 4
Opções para ocupação dos tempos livres* (médias)

* valores médios obtidos para uma escala de 1 (adesão mais elevada) a 5 (adesão mais baixa)
Estes valores mostram que "estar com os amigos" é, em termos comparativos, a preferência primeira para a ocupação dos tempos livres entre os jovens, independentemente do grupo etário. Um segundo grupo de preferências inclui, com valores médios similares, "praticar desporto" e "ver televisão/vídeo". A leitura aparece entre os diferentes grupos com os valores médios que traduzem a rejeição mais elevada, sendo o caso do grupo "16 anos e mais" a única excepção, com os jogos de computador a substituírem a leitura naquela posição.
De forma a consolidar a informação obtida acerca das atitudes para com os livros e a leitura e, de um outro ângulo, estabelecer a posição da leitura relativamente a outras actividades, tentámos circunscrever alguns hábitos relativos à presença de livros durante o tempo de férias. Os estudantes foram com esse objectivo interrogados acerca do costume de levarem para as férias materiais de leitura. Os dados obtidos permitem classificar os objectos de leitura como materiais "relevantes" para todos os grupos (85% das respostas obtidas diziam "sim, costumo levar livros comigo durante as férias"). Mas quando inquirimos os estudantes sobre o tipo de objectos de leitura que levavam recebemos, em todas as categorias, um grande número de respostas negativas (revistas - 58,2%; livros - 59,7%; banda desenhada - 61,1%). Contudo, os estudantes dos ciclos mais avançados fornecem sempre respostas mais afirmativas, embora as suas preferências se centrem em revistas e não mais em livros como acontecia com os mais jovens.

Por que não lêem os estudantes
Inquiridos acerca das razões que explicariam por que não lêem livros, os estudantes forneceram as respostas descritas no quadro seguinte:


Gráfico 5
Razões para não ler livros

Como se pode verificar, há uma desvalorização objectiva da leitura, dado que 65,3% dos estudantes inquiridos seleccionaram como razão principal para não lerem a preferência por outras actividades; este facto é congruente com outros já anteriormente referidos. O pouco interesse dos livros é referido por cerca de metade da amostra como razão para não se ler. As práticas dos pares não são consideradas como factor importante (numa pelo menos aparente contradição com outras práticas relatadas como "conversar com os amigos acerca de livros", ou "trocar livros e revistas", como antes vimos); ao mesmo tempo, não parece que as dificuldades de com-preensão dos textos seja um factor importante no afastamento dos livros. A partir destes dados, o que pode ser enfatizado é que o conteúdo dos li-vros, mais do que a forma da expressão, é uma causa principal da barreira que parece existir entre os estudantes e a leitura.
Entretanto, devemos anotar a importância atribuída ao preço dos livros como factor limitati-vo do acesso. Tendo em conta a avaliação realizada sobre as bibliotecas escolares (79,3% dos sujeitos têm uma opinião "positiva" ou "muito positiva" acerca destas bibliotecas), a dificuldade na obten-ção de livros agora relatada é, pelo menos, contra-ditória e, provavelmente, só pode ser explicada através de uma menor familiaridade com as bibliote-cas e a sua utilização (cerca de 37% dos inquiridos desconheciam se as bibliotecas emprestavam livros ou não).
O escasso uso de fontes alternativas para a obtenção de livros torna-se mais evidente quando se consideram os dados relativos aos lugares onde se costuma ler, a frequência de bibliotecas (escolares ou outras), os hábitos e os objectivos da requisi-ção de livros em bibliotecas e a frequência de li-vrarias. Consideremos de forma resumida alguns dos principais resultados que obtivemos a este respei-to:
- a casa é o lugar privilegiado para se ler, surgindo a leitura como prática predominantemente privada, não parecendo a escola dispor das condi-ções adequadas - 92,6% dos estudantes declaram que costumam ler principalmente em casa e se, a este respeito, compararmos os diferentes grupos não en-contramos diferenças significativas;
- os resultados referentes à frequência de bibliotecas apontam no mesmo sentido; mais de meta-de da amostra declarou que "nunca" ou "raramente" costuma frequentar a biblioteca da escola; o quadro torna-se mais crítico quando se consideram outras bibliotecas que não as escolares, com mais de 60% dos inquiridos a afirmar que "nunca" ou "quase nun-ca" as frequentam; uma vez mais, as bibliotecas aparecem como lugares progressivamente menos rele-vantes para os estudantes à medida que se conside-ram os níveis de escolaridade mais avançados;
- a requisição de livros é um dos indicadores mais significativos das atitudes para com os livros e a leitura; num contexto em que a requisição de livros pode ser descrita como rara, foi possível observar uma diminuição progressiva desta prática entre os estudantes mais velhos; nos casos em que ela é referida, tende a ser associada ao trabalho na sala de aula mais do que à leitura de lazer; esta última tendência é particularmente forte no caso dos estudantes mais avançados (68,8% dos estu-dantes do ensino secundário estão nesta situação);
- mais de um terço dos estudantes diz que não costuma ir a livrarias; esta prática tem maior ex-pressão junto dos estudantes mais velhos (35,9%) do que dos mais novos (29,1%); mais de 70% dos estu-dantes do 3º ciclo afirma "nunca" ou "apenas algu-mas vezes" costumarem ir a livrarias a fim de se manter a par das novidades publicadas.

Os textos preferidos
A presunção de que diferentes atitudes e ob-jectivos, diferentes modalidades e mesmo lugares podem ser associados a diferentes tipos de texto justificou as perguntas aos estudantes acerca dos textos que preferem ler. A construção da tipologia necessária à realização desta tarefa não foi fácil, dada a necessidade de assegurar que as categorias utilizadas tornassem possível a identificação das diferenças antes mencionadas e, ao mesmo tempo, que elas fossem reconhecidas pelos inquiridos, o que implicou algum tipo de aproximação aos modos mais comuns de referir os diferentes tipos de livros.


Gráfico 6
Frequência da leitura de livros

Mais de metade e mais de um terço dos inquiridos dizem que, respectivamente, os "livros de aventuras" e a "banda desenhada" são os tipos de livros que eles lêem "muitas vezes"; ao mesmo tempo, estes são também os livros com o grau de rejeição mais baixo.
Contudo, quando se consideram os diferentes grupos, a "banda desenhada" e os "livros de aventuras" são os tipos de preferência que claramente perdem terreno à medida que os estudantes progridem na escolaridade, enquanto que "romances e novelas" se tornam os livros preferidos pelos alunos mais adiantados. Este facto deve ser entendido à luz de uma influência "directa" da escola; é no ensino secundário que, de forma mais sistemática, os estudantes são confrontados com a leitura de romances e novelas.
As "biografias" são o tipo menos apreciado, apresentando o valor de rejeição mais elevado; neste caso, porém, o nível de escolaridade não constitui uma variável produtiva. O mesmo tipo de comentário pode ser realizado acerca dos "livros técnicos" e de "ficção científica", embora possa ser observada uma ligeira variação positiva de acordo com o nível de escolaridade, principalmente quando se considera a primeira daquelas categorias.
Um indicador significativo das práticas de leitura é o número de livros que os inquiridos dizem ter lido num período de tempo determinado, prévio à realização do inquérito.


Gráfico 7
Número de livros lidos no ano interior

Se considerarmos o facto de a fiabilidade das respostas a este tipo de perguntas ser sempre difícil de estabelecer, o interesse destes dados reside principalmente no facto de eles permitirem estabelecer uma comparação entre os diferentes grupos. A este propósito, deve acentuar-se o decréscimo no número de livros que se diz ter lido à medida que se progride na escolaridade. É especialmente interessante notar a evolução da percentagem de leitores de 1-2 livros que corresponde à décima parte dos estudantes do 2º ciclo e aumenta até um terço dos estudantes do ensino secundário.
Entretanto, e apesar de a pergunta do questionário mencionar explicitamente tratar-se de referências a livros não escolares, deve ter-se em conta a possibilidade de os livros aqui referidos serem livros lidos para a escola, uma vez que a leitura de obras integrais tem uma importância considerável, designadamente nos níveis mais avançados da escolaridade; o facto de serem textos que requerem maior disponibilidade de tempo, de serem objecto de avaliação e de serem obras literárias, pode eventualmente torná-los mais presentes na memória dos estudantes. E este é um facto que torna ainda mais significativo o decréscimo do número de livros que se diz ler.
Para lá da identificação da percentagem de não leitores, leitores fracos ou bons leitores que o Gráfico permite, estes resultados são interessantes também porque mobilizam mais um indicador do momento em que se deixa de ler; fica clara a existência de um ponto crítico no percurso dos estudantes, um momento em que a sua relação com os livros e com a leitura se altera significativamente passando de uma atitude mais positiva para uma atitude menos positiva.
Consideremos agora outros tipos de materiais de leitura como as revistas e os jornais. A relevância da sua distinção relativamente aos livros pode ser estabelecida a partir de diferenças que efectivamente existem. Estas diferenças que dizem respeito, por exemplo, às diferentes formas de acesso que supõem, às diferenças na sua lisibilidade, aos diferentes objectivos de leitura a que podem ser associados ou mesmo às diferenças de preços, originam diferentes práticas e diferentes modos de relação com a leitura. A adopção desta distinção não significa nenhum juízo de valor acerca da qualidade destes objectos de leitura. Pensamos mesmo que não é legítima qualquer associação entre leitura de livros e "leitura de qualidade" e a identificação entre a leitura de jornais e revistas e um nível "inferior" de leitura, embora devamos reconhecer diferenças no seu estatuto e uma maior valorização cultural do livro.
As respostas acerca da frequência de leitura de jornais e revistas permitiu-nos identificar uma preferência por meios de informação especializada - desporto, espectáculos -, seguida de banda desenhada; os valores mais baixos que obtivemos dizem respeito a jornais e revistas de informação técnica e geral.


Gráfico 8
Frequência de leitura de jornais e revistas

Foi possível identificar uma relação estatisticamente significativa entre os grupos de sujeitos (definidos na base da idade) e a leitura de revistas de espectáculos (p=0.0001), revistas e jornais de informação geral (p=0.0001) e de informação técnica (p=0.0001).
A leitura de jornais e revistas de espectáculos é cada vez menos frequente à medida que aumenta a idade dos respondentes, o mesmo acontecendo com a leitura de jornais e revistas técnicas e de informação geral, embora com índices de leitura mais baixa. Ao contrário, ser mais velho implica uma menor valorização da banda desenhada.
Para assegurar algum controlo sobre as respostas anteriores, e também para construir uma representação dos objectos de leitura preferidos, foi pedida uma indicação de um máximo de três títulos das revistas e jornais mais frequentemente lidos. Pareceu interessante considerar a própria capacidade de evocar aqueles títulos porque, de alguma maneira, aquela resposta dar-nos-ia conta da relação afectiva, se assim se pode dizer, que os sujeitos mantêm com os objectos que lêem.
Pudemos verificar que a capacidade de evocar aqueles títulos é uma característica do grupo "de 13 a 15 anos" e "mais de 16 anos". De facto, 69% dos sujeitos deste último grupo indicaram três títulos de revistas enquanto 71,3% o fizeram relativamente aos títulos de jornais; neste último caso, e no grupo "de 10 a 12 anos", estes valores descem para 41%.
A mesma solicitação foi feita relativamente aos títulos de livros e se compararmos livros e revistas, este último é o tipo de material mais frequentemente identificado, sobretudo entre os estudantes mais velhos.

A concluir
Como síntese, poder-se-á dizer que embora a leitura seja reconhecida pelos estudantes como uma prática significativa, esta atitude é de alguma forma contrariada pelas respectivas práticas; a este respeito, pode dizer-se que os princípios afirmados ao nível do discurso não encontram necessariamente correspondência com as práticas culturais em que os estudantes preferem envolver-se.
A desvalorização efectiva da leitura entre os estudantes mais velhos e a apetência pela leitura entre os mais novos impõe a investigação das razões de tal atitude. Parece que o material posto à disposição dos jovens do grupo "16 anos e mais" não corresponde aos seus interesses; por outro lado, podemos inferir algum tipo de decréscimo na promoção da leitura entre estes estudantes ou, pelo menos, uma desconexão entre tais acções e as expectativas dos estudantes.
Pais e professores parecem entender que os leitores são feitos de uma vez para sempre nos primeiros anos de escolaridade e que a partir daí a questão é tão só a de usar esse ganho. No entanto, dada a perda de leitores observada após o 3º ciclo, parece importante que as escolas assumam que os estudantes mais velhos devem em contacto constante com actividades de promoção da leitura, principalmente através da disponibilização de materiais de leitura apelativos. Nestes níveis etários, a preferência por actividades de grupo, mais que individuais, é natural; no entanto, se os sujeitos crescem numa comunidade onde a leitura é algo de tão natural como a prática de desportos, por exemplo, ou onde necessidades de leitura são criadas, quando chegarem à idade adulta é mais provável que tais hábitos de leitura venham a emergir.
A escassa frequência de bibliotecas escolares ou públicas é um dado importante, designadamente se tivermos em conta que a rede de leitura pública dispõe de importantes infraestruturas que, mais tarde ou mais cedo, serão inúteis se ninguém as utilizar. Tendo estes resultados em mente, parece necessário que as bibliotecas vão à procura dos seus leitores em vez de ficarem à sua espera.
Devemos concordar que se as actividades de promoção de leitura forem mais agressivas, a transição entre a infância e a idade adulta, no que aos hábitos de leitura diz respeito, poderá ser feita sem tantas perdas.

Notas
(1) Este texto corresponde à tradução de uma comunicação apresentada pelos autores no 16th World Congress on Reading, Praga, 1996.
(2) São muito diversificadas as definições propostas para literacia; de entre as diversas conceptualizações considere-se a seguinte: "Literacia é, então, um conjunto de práticas socialmente organizadas que fazem uso de um sistema de símbolos e de uma tecnologia para o produzir e disseminar. A literacia não é simplesmente saber como ler e escrever um guião particular, mas aplicar este conhecimento para fins específicos em contextos específicos de uso. A natureza destas práticas, incluindo claro, os seus aspectos tecnológicos determinarão os tipos de skills […] associados à literacia" (cf. Scribner & Cole, 1981).
(3) Vejam-se, entre outros estudos, Freitas & Santos (1992), Sim-Sim & Ramalho (1993), Alçada & Magalhães (1993). Outros trabalhos, não exclusivamente centrados em questões relativas aos hábitos e atitudes de leitura, têm-lhe no entanto dedicado um espaço significativo: Pais, Nunes, Duarte & Mendes (1994), Silva & Santos (1995).
(4) Os dados apresentados neste quadro estão organizados em função da variável "idade" por se considerar ser esta uma variável mais pertinente na determinação da forma de ocupação dos tempos livres; de facto, é de esperar que estas formas estejam mais associadas à idade do que ao "ciclo de escolaridade", embora, como já foi referido, haja entre estas variáveis um grau de intersecção elevado.


Referências
Freitas, Eduardo & Santos, Mª de Lurdes L. dos (1992). Hábitos de leitura em Portugal. Inquérito sociológico. Lisboa: D. Quixote.
Magalhães, Ana Mª & Alçada, Isabel (1993). Os jovens e a leitura nas vésperas do século XXI. Lisboa: Editorial Caminho.
Pais, José M., Nunes, João das S., Duarte, Mª Paula & Mendes, F. Luís (1994). Práticas culturais dos lisboetas. Lisboa: ICS.
Scribner, Sylvia & Cole, Michael (1981). The psychology of literacy. Cambridge, MA: Harvard University Press.
Silva, Augusto S. & Santos, Helena (1995). Práticas e representação das culturas: um inquérito na área metropolitana do Porto. Porto: Centro Regional de Artes Tradicionais.
Sim-Sim, Inês & Ramalho, Glória (1993). Como lêem as nossas crianças. Lisboa: ME.