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HÁBITOS E ATITUDES DE LEITURA DOS
ESTUDANTES PORTUGUESES1
Rui
Vieira de Castro
Maria de Lourdes Dionísio de Sousa
Neste texto são apresentados
alguns resultados de uma investigação de âmbito nacional
que temos estado a desenvolver acerca das atitudes e hábitos de
leitura dos estudantes portugueses dos ensinos básico e secundário.
Para este estudo, cuja realização foi apoiada pelo Instituto
da Biblioteca Nacional e do Livro, foram definidos como objectivos principais:
- descrever algumas das principais características dos contextos
críticos de socialização para a leitura experienciados
pelos estudantes, designadamente, a família, a escola e o grupo
de pares;
- identificar alguns dos aspectos principais das práticas de leitura
desenvolvidas pelos estudantes, nomeadamente no que diz respeito aos seus
objectivos, objectos, frequência e importância relativa no
quadro das actividades de ocupação de tempos livres;
- caracterizar atitudes para com a leitura e os livros;
- comparar alguns dos dados obtidos em cada uma das dimensões antes
referidas.
Neste texto estaremos confinados à apresentação de
dados relativos à realização parcial de alguns dos
objectivos previamente mencionados; referir-nos-emos designadamente:
- às atitudes para com a leitura manifestadas pelos estudantes
inquiridos;
- ao estatuto da leitura entre as actividades de lazer;
- às práticas de leitura de jornais e revistas;
- às práticas de leitura de livros, nomeadamente, tipos
preferidos, contextos privilegiados e frequência.
Uma radiografia incompleta
Este estudo tem vindo a ser realizado num tempo em que a leitura e, genericamente,
a literacia2 se tornaram objecto
de preocupação política; num tempo, também,
em que correlativamente, e sem que tal suponha da nossa parte qualquer
tentativa de estabelecimento de nexos de causalidade, é visível
uma progressiva emergência desta problemática no campo científico;
de facto, depois de um período de quase total ausência de
trabalhos académicos neste âmbito, nos últimos anos,
as questões relacionadas com os hábitos, as atitudes e as
competências de leitura têm vindo a ocupar um lugar, não
certamente central, mas ainda assim significativo, entre as preocupações
de investigadores com diferentes inserções disciplinares
e distintas orientações teóricas3.
Orientados por diferentes objectivos, adoptando metodologias diversas,
seleccionando distintas amostras, estes estudos têm vindo a possibilitar
a construção de uma radiografia dos leitores portugueses.
Radiografia incompleta, porém, pois que alguns grupos e algumas
práticas não têm sido, naturalmente em função
dos objectivos dos investigadores, suficientemente considerados.
Comparemos, de forma abreviada, dois estudos que, pelo menos parcialmente
intersectam a população que nos propusemos estudar, e cuja
configuração permite sustentar a afirmação
anteriormente feita.
|
Freitas
& Santos (1992)
|
Alçada
& Magalhães (1993)
|
| Alguns
objectivos |
-
quem lê?
- o que é lido (livros, revis-tas, jornais)?
- qual é a frequência da leitura?
- quantos e quais livros são lidos?
- quem compra livros?
- qual é o lugar da leitura entre as escolhas culturais? |
-
quem lê entre os es-tu-dantes?
- quais são os livros que os jovens leitores preferem?
- qual é o lugar da leitura entre as acti-vidades de ocupação
dos tempos livres?
- o que é que os professores e os pais fazem para promover
o gosto pela leitura?
- quais são as atitudes dos pais para com a leitura?
- que fazem as autoridades locais para promover a leitura? |
| Metodo-logias |
-
inquérito por questionário |
-
inquérito por questionário |
| Amostra |
-
dois mil sujeitos representando a população portuguesa
letrada |
-
estudantes (3982, princi-palmente do 1º e 2º ciclos de escolari-dade);
- professores (1350, cerca de 50% dos quais do 1º ciclo); - 1055
respon-sáveis de bibliotecas escolares, das quais 37% do 1º
ciclo; - 3470 pais e encarregados de educação; 210 Câmaras
Municipais. |
| Alguns
resultados |
resistência
à leitura de livros, embora não resistência à
leitura em geral;
correlação entre leitores fracos e baixos níveis
de instrução, trabalho menos qualificado, pais com características
similares, modos positivos de socialização primária
leitura significativa de jornais e revistas |
a
leitura de livros, revistas e jornais como modos menos privilegiados
de ocupação dos tempos livres
atitudes positivas para com a leitura
leitura frequente de livros
banda desenhada e livros de aventuras como géneros pre-feridos |
Um contributo para a caracterização
dos leitores portugueses
O estudo por nós desenvolvido, tendo em conta a amostra seleccionada,
constituída por estudantes dos diversos níveis de escolaridade,
acaba por possibilitar o alargamento da caracterização dos
leitores portugueses. Os dados preliminares que apresentamos neste texto
foram obtidos através de um inquérito por questionário
respondido por 1651 sujeitos, originários de todo o país,
com a seguinte distribuição por sexo e ciclo de escolaridade:
Quadro 1
Distribuição dos sujeitos da amostra por sexo e ciclo da
escolaridade
|
Ensino
básico
|
Ensino
|
|
2º ciclo (F=538) |
3º ciclo (F=596)
|
secundário
(F=517)
|
Rapazes
(F=769) |
34,6% |
36,9% |
28,5% |
Raparigas
(F=878) |
30,8% |
35,4% |
33,8% |
| Total |
32,5% |
36,1% |
31,3% |
Embora estes valores correspondam
a uma relativa sub-representação do 2º ciclo da escolaridade,
é de notar o equilíbrio na distribuição pelos
níveis de escolaridade, raras vezes encontrada em estudos anteriores.
Se tomarmos a idade como variável, o grupo "de 10 a 12 anos"
representa 29% da amostra, os estudantes com idades "de 13 a 15 anos"
constituem 41,9%, enquanto os inquiridos com "mais de 16 anos"
representam 29,1% do total. Esta distribuição constitui
uma base que julgamos sólida para a obtenção de novas
informações capazes de possibilitar uma caracterização
mais ajustada das práticas de leitura da população
estudantil portuguesa, bem como uma melhor compreensão dos processos
de perdas e ganhos de leitores.
As atitudes para com a leitura
Aos estudantes inquiridos foi solicitada a indicação da
sua atitude genérica para com a leitura, através do seu
autoposicionamento numa escala que previa diferentes graus de adesão/rejeição
àquele tipo de prática comunicativa. Os resultados obtidos
são apresentados no Gráfico 1.

Gráfico
1
Atitudes para com a leitura
Em termos gerais, pode dizer-se
que, para os estudantes inquiridos, a leitura é uma prática
valorizada positivamente; do mesmo modo, que existe uma atitude claramente
favorável para com a leitura que, no entanto, decresce à
medida que se progride na escolaridade; de facto, se entre os estudantes
do 2º ciclo do ensino básico são apenas 16,7% os que
declaram "não gostar" de ler, essa percentagem é
já de 30,2% entre os estudantes do ensino secundário.
Esta atitude para com a leitura que se pode qualificar como globalmente
positiva é coerente com alguns resultados que obtivemos relativos
às características dos contextos de socialização:
- no contexto da família, os adultos são descritos como
tendo hábitos de leitura, embora mais de jornais e revistas do
que de livros; são 67,5% os inquiridos que afirmam que os adultos
com quem vivem costumam "todos" ou na "maior parte"
ler jornais ou revistas; esta percentagem desce, porém, para 27%
quando se trata da leitura de livros.
- um grande número de estudantes relata como frequente o hábito
de oferecer livros no interior da sua família: 64,6% declaram que
os adultos costumam oferecer-lhes livros "algumas vezes" ou
"muitas vezes";
- 77,4% dos sujeitos afirmam "gostar" ou "gostar muito"
que lhes sejam oferecidos livros;
- cerca de 65% dos inquiridos relatam que as situações em
que, na sua infância, lhes foram lidas histórias pelos mais
velhos tiveram lugar "algumas vezes" ou "muitas vezes";
- ao nível do grupo de pares, cerca de 60% dos estudantes disseram-nos
que costumam falar, "algumas vezes" ou muitas vezes", com
os seus amigos acerca daquilo que lêem;
- cerca de 51% dos inquiridos afirmam que, "algumas vezes" ou
"muitas vezes", trocam materiais de leitura entre os seus pares.
Se tivermos estes últimos dados em consideração,
é de certo modo surpreendente que, quando analisamos as respostas
acerca dos factores que, do ponto de vista dos próprios inquiridos,
podem ter contribuído para a atitude positiva para com a leitura
acima mencionada, encontremos uma desvalorização do "grupo
de pares":

Gráfico
2
Factores que influenciaram as atitudes para com a leitura*
*valores obtidos a partir
da indicação das duas razões tidas como mais importantes
Como se pode observar, as
características pessoais são percepcionadas pelos inquiridos
como o factor determinante da sua relação com a leitura,
com mais de dois terços do total da amostra a referirem-nas nas
suas respostas. Este factor é reconhecido como progressivamente
mais importante à medida que os inquiridos se situam nos ciclos
mais avançados da escolaridade. Em congruência, decresce
o reconhecimento da importância dos diversos contextos de socialização
considerados; a este propósito, é particularmente notória
a quebra no reconhecimento da relevância dos contextos de socialização
na passagem do grupo do "2º ciclo" para os grupos seguintes.
O papel da escola na promoção da leitura
Importa também referir a relativa desvalorização
da escola como factor de condicionamento das atitudes para com a leitura,
sobretudo entre os jovens dos ciclos iniciais. Estes resultados devem
também ser lidos à luz daqueles que obtivemos quando inquirimos
os estudantes acerca: (i) da frequência das intervenções
explícitas dos seus professores orientadas para a promoção
da leitura; (ii) dos seus comportamentos quando são aconselhados
a ler livros; e (iii) das suas percepções relativas ao empenhamento
das escolas na promoção da leitura.
Se, por um lado, as respostas obtidas a este propósito, testemunharam
a preocupação dos professores com o desenvolvimento de hábitos
de leitura (cerca de 80% dos estudantes disseram-nos que os seus professores
costumavam aconselhá-los a ler "algumas vezes" ou "muitas
vezes"), por outro lado, os estudantes, sobretudo aqueles dos níveis
mais avançados, relataram que "nunca" ou "poucas
vezes" seguiam aqueles conselhos (43,6%). Confrontados com a afirmação
"A minha escola procura promover o gosto pela leitura", os sujeitos
revelaram, no contexto de uma concordância genérica com este
enunciado, uma avaliação progressivamente negativa acerca
do papel da escola, como pode verificar-se no gráfico seguinte:

Gráfico
3
Opinião acerca da afirmação
"A minha escola procura fazer com que os alunos gostem de ler"
Este decréscimo de
opiniões positivas acerca do papel da escola pode, do nosso ponto
de vista, residir numa hipotética mudança das práticas
escolares em que os inquiridos vêm a ser envolvidos e, em consequência,
na frustração de expectativas previamente construídas.
Deve dizer-se, entretanto, que 21,6% dos inquiridos referiu não
ter uma opinião definida acerca do papel da escola na promoção
da leitura, facto que não deixa de constituir um indicador interessante
acerca do tipo de intervenção que a escola promove, ou melhor,
não promove. Estes factos levam-nos, por outro lado, a considerar,
nas práticas escolares, uma possível associação
entre actividades explicitamente orientadas para a promoção
da leitura e níveis mais elementares da escolaridade; este tipo
de intervenção tenderia a perder importância à
medida que os estudantes progridem na escolaridade, com a escola a não
entender os estudantes mais avançados como leitores "em construção".
A leitura no quadro da ocupação
dos tempos livres
A análise do estatuto da leitura entre os jovens passou, neste
estudo, pela consideração do lugar desta prática
no quadro das actividades de ocupação dos tempos livres
que aqueles normalmente desenvolvem. Neste sentido, apresentámos
aos inquiridos um conjunto de opções para os tempos de lazer,
tendo-lhes sido pedido que estabelecessem prioridades; estas escolhas,
esperávamos, revelariam a importância que os jovens de facto
atribuem à leitura.
|
Estar
com
10 a 1 2 anos
|
13
a 15
anos
|
16
anos
e mais
|
Total
|
Ver
tv/vídeo |
19,6
|
13,9
|
11,8
|
14,9
|
Jogos
de
vídeo |
21,0
|
11,4
|
4,9
|
12,1
|
| Ler |
12,9
|
5,8
|
3,8
|
7,2
|
| Fazer
desporto |
20,9
|
20,8
|
22,0
|
21,3
|
Estar
c/
amigos |
33,1
|
50,8
|
60,0
|
48,7
|
* considerámos aqui
exclusivamente, nas diversas categorias, as referências como primeira
opção
Surpreendentemente, se confrontarmos
a valorização atribuída à leitura, em absoluto
(Gráfico 2), com a sua valorização relativa no contexto
dos diversos modos de ocupação dos tempos livres, a leitura
passa a aparecer, de forma clara, como a actividade menos preferida, qualquer
que seja o grupo considerado4.
O convívio no interior dos grupos de pares surge como modo privilegiado
de ocupação do tempo livre, e como modo cuja relevância
aumenta com a idade; por sua parte, a prática desportiva, tendo
um lugar importante como forma de lazer, mantém essa posição
independentemente dos grupos que se considere; as restantes modalidades
apresentam uma característica comum - o seu interesse decresce
com a idade dos sujeitos. Neste contexto, a leitura emerge como uma prática
minoritária, constituindo em qualquer dos grupos e de forma diferenciada
a actividade menos usual na ocupação dos tempos livres.
Para além disso, e congruentemente com outros dados antes apresentados
(ver Gráfico 2), verifica-se entre os estudantes dos grupos etários
mais avançados um decréscimo muito acentuado da leitura
como forma de ocupar o tempo livre.
Considerem-se, agora, os valores médios das diferentes categorias.
 
Gráfico
4
Opções para ocupação dos tempos livres* (médias)
* valores médios obtidos
para uma escala de 1 (adesão mais elevada) a 5 (adesão mais
baixa)
Estes valores mostram que "estar com os amigos" é, em
termos comparativos, a preferência primeira para a ocupação
dos tempos livres entre os jovens, independentemente do grupo etário.
Um segundo grupo de preferências inclui, com valores médios
similares, "praticar desporto" e "ver televisão/vídeo".
A leitura aparece entre os diferentes grupos com os valores médios
que traduzem a rejeição mais elevada, sendo o caso do grupo
"16 anos e mais" a única excepção, com
os jogos de computador a substituírem a leitura naquela posição.
De forma a consolidar a informação obtida acerca das atitudes
para com os livros e a leitura e, de um outro ângulo, estabelecer
a posição da leitura relativamente a outras actividades,
tentámos circunscrever alguns hábitos relativos à
presença de livros durante o tempo de férias. Os estudantes
foram com esse objectivo interrogados acerca do costume de levarem para
as férias materiais de leitura. Os dados obtidos permitem classificar
os objectos de leitura como materiais "relevantes" para todos
os grupos (85% das respostas obtidas diziam "sim, costumo levar livros
comigo durante as férias"). Mas quando inquirimos os estudantes
sobre o tipo de objectos de leitura que levavam recebemos, em todas as
categorias, um grande número de respostas negativas (revistas -
58,2%; livros - 59,7%; banda desenhada - 61,1%). Contudo, os estudantes
dos ciclos mais avançados fornecem sempre respostas mais afirmativas,
embora as suas preferências se centrem em revistas e não
mais em livros como acontecia com os mais jovens.
Por que não lêem
os estudantes
Inquiridos acerca das razões que explicariam por que não
lêem livros, os estudantes forneceram as respostas descritas no
quadro seguinte:

Gráfico
5
Razões para não ler livros
Como se pode verificar, há
uma desvalorização objectiva da leitura, dado que 65,3%
dos estudantes inquiridos seleccionaram como razão principal para
não lerem a preferência por outras actividades; este facto
é congruente com outros já anteriormente referidos. O pouco
interesse dos livros é referido por cerca de metade da amostra
como razão para não se ler. As práticas dos pares
não são consideradas como factor importante (numa pelo menos
aparente contradição com outras práticas relatadas
como "conversar com os amigos acerca de livros", ou "trocar
livros e revistas", como antes vimos); ao mesmo tempo, não
parece que as dificuldades de com-preensão dos textos seja um factor
importante no afastamento dos livros. A partir destes dados, o que pode
ser enfatizado é que o conteúdo dos li-vros, mais do que
a forma da expressão, é uma causa principal da barreira
que parece existir entre os estudantes e a leitura.
Entretanto, devemos anotar a importância atribuída ao preço
dos livros como factor limitati-vo do acesso. Tendo em conta a avaliação
realizada sobre as bibliotecas escolares (79,3% dos sujeitos têm
uma opinião "positiva" ou "muito positiva"
acerca destas bibliotecas), a dificuldade na obten-ção de
livros agora relatada é, pelo menos, contra-ditória e, provavelmente,
só pode ser explicada através de uma menor familiaridade
com as bibliote-cas e a sua utilização (cerca de 37% dos
inquiridos desconheciam se as bibliotecas emprestavam livros ou não).
O escasso uso de fontes alternativas para a obtenção de
livros torna-se mais evidente quando se consideram os dados relativos
aos lugares onde se costuma ler, a frequência de bibliotecas (escolares
ou outras), os hábitos e os objectivos da requisi-ção
de livros em bibliotecas e a frequência de li-vrarias. Consideremos
de forma resumida alguns dos principais resultados que obtivemos a este
respei-to:
- a casa é o lugar privilegiado para se ler, surgindo a leitura
como prática predominantemente privada, não parecendo a
escola dispor das condi-ções adequadas - 92,6% dos estudantes
declaram que costumam ler principalmente em casa e se, a este respeito,
compararmos os diferentes grupos não en-contramos diferenças
significativas;
- os resultados referentes à frequência de bibliotecas apontam
no mesmo sentido; mais de meta-de da amostra declarou que "nunca"
ou "raramente" costuma frequentar a biblioteca da escola; o
quadro torna-se mais crítico quando se consideram outras bibliotecas
que não as escolares, com mais de 60% dos inquiridos a afirmar
que "nunca" ou "quase nun-ca" as frequentam; uma vez
mais, as bibliotecas aparecem como lugares progressivamente menos rele-vantes
para os estudantes à medida que se conside-ram os níveis
de escolaridade mais avançados;
- a requisição de livros é um dos indicadores mais
significativos das atitudes para com os livros e a leitura; num contexto
em que a requisição de livros pode ser descrita como rara,
foi possível observar uma diminuição progressiva
desta prática entre os estudantes mais velhos; nos casos em que
ela é referida, tende a ser associada ao trabalho na sala de aula
mais do que à leitura de lazer; esta última tendência
é particularmente forte no caso dos estudantes mais avançados
(68,8% dos estu-dantes do ensino secundário estão nesta
situação);
- mais de um terço dos estudantes diz que não costuma ir
a livrarias; esta prática tem maior ex-pressão junto dos
estudantes mais velhos (35,9%) do que dos mais novos (29,1%); mais de
70% dos estu-dantes do 3º ciclo afirma "nunca" ou "apenas
algu-mas vezes" costumarem ir a livrarias a fim de se manter a par
das novidades publicadas.
Os textos preferidos
A presunção de que diferentes atitudes e ob-jectivos, diferentes
modalidades e mesmo lugares podem ser associados a diferentes tipos de
texto justificou as perguntas aos estudantes acerca dos textos que preferem
ler. A construção da tipologia necessária à
realização desta tarefa não foi fácil, dada
a necessidade de assegurar que as categorias utilizadas tornassem possível
a identificação das diferenças antes mencionadas
e, ao mesmo tempo, que elas fossem reconhecidas pelos inquiridos, o que
implicou algum tipo de aproximação aos modos mais comuns
de referir os diferentes tipos de livros.

Gráfico
6
Frequência da leitura de livros
Mais de metade e mais de um
terço dos inquiridos dizem que, respectivamente, os "livros
de aventuras" e a "banda desenhada" são os tipos
de livros que eles lêem "muitas vezes"; ao mesmo tempo,
estes são também os livros com o grau de rejeição
mais baixo.
Contudo, quando se consideram os diferentes grupos, a "banda desenhada"
e os "livros de aventuras" são os tipos de preferência
que claramente perdem terreno à medida que os estudantes progridem
na escolaridade, enquanto que "romances e novelas" se tornam
os livros preferidos pelos alunos mais adiantados. Este facto deve ser
entendido à luz de uma influência "directa" da
escola; é no ensino secundário que, de forma mais sistemática,
os estudantes são confrontados com a leitura de romances e novelas.
As "biografias" são o tipo menos apreciado, apresentando
o valor de rejeição mais elevado; neste caso, porém,
o nível de escolaridade não constitui uma variável
produtiva. O mesmo tipo de comentário pode ser realizado acerca
dos "livros técnicos" e de "ficção
científica", embora possa ser observada uma ligeira variação
positiva de acordo com o nível de escolaridade, principalmente
quando se considera a primeira daquelas categorias.
Um indicador significativo das práticas de leitura é o número
de livros que os inquiridos dizem ter lido num período de tempo
determinado, prévio à realização do inquérito.

Gráfico
7
Número de livros lidos no ano interior
Se considerarmos o facto de
a fiabilidade das respostas a este tipo de perguntas ser sempre difícil
de estabelecer, o interesse destes dados reside principalmente no facto
de eles permitirem estabelecer uma comparação entre os diferentes
grupos. A este propósito, deve acentuar-se o decréscimo
no número de livros que se diz ter lido à medida que se
progride na escolaridade. É especialmente interessante notar a
evolução da percentagem de leitores de 1-2 livros que corresponde
à décima parte dos estudantes do 2º ciclo e aumenta
até um terço dos estudantes do ensino secundário.
Entretanto, e apesar de a pergunta do questionário mencionar explicitamente
tratar-se de referências a livros não escolares, deve ter-se
em conta a possibilidade de os livros aqui referidos serem livros lidos
para a escola, uma vez que a leitura de obras integrais tem uma importância
considerável, designadamente nos níveis mais avançados
da escolaridade; o facto de serem textos que requerem maior disponibilidade
de tempo, de serem objecto de avaliação e de serem obras
literárias, pode eventualmente torná-los mais presentes
na memória dos estudantes. E este é um facto que torna ainda
mais significativo o decréscimo do número de livros que
se diz ler.
Para lá da identificação da percentagem de não
leitores, leitores fracos ou bons leitores que o Gráfico permite,
estes resultados são interessantes também porque mobilizam
mais um indicador do momento em que se deixa de ler; fica clara a existência
de um ponto crítico no percurso dos estudantes, um momento em que
a sua relação com os livros e com a leitura se altera significativamente
passando de uma atitude mais positiva para uma atitude menos positiva.
Consideremos agora outros tipos de materiais de leitura como as revistas
e os jornais. A relevância da sua distinção relativamente
aos livros pode ser estabelecida a partir de diferenças que efectivamente
existem. Estas diferenças que dizem respeito, por exemplo, às
diferentes formas de acesso que supõem, às diferenças
na sua lisibilidade, aos diferentes objectivos de leitura a que podem
ser associados ou mesmo às diferenças de preços,
originam diferentes práticas e diferentes modos de relação
com a leitura. A adopção desta distinção não
significa nenhum juízo de valor acerca da qualidade destes objectos
de leitura. Pensamos mesmo que não é legítima qualquer
associação entre leitura de livros e "leitura de qualidade"
e a identificação entre a leitura de jornais e revistas
e um nível "inferior" de leitura, embora devamos reconhecer
diferenças no seu estatuto e uma maior valorização
cultural do livro.
As respostas acerca da frequência de leitura de jornais e revistas
permitiu-nos identificar uma preferência por meios de informação
especializada - desporto, espectáculos -, seguida de banda desenhada;
os valores mais baixos que obtivemos dizem respeito a jornais e revistas
de informação técnica e geral.

Gráfico
8
Frequência de leitura de jornais e revistas
Foi possível identificar
uma relação estatisticamente significativa entre os grupos
de sujeitos (definidos na base da idade) e a leitura de revistas de espectáculos
(p=0.0001), revistas e jornais de informação geral (p=0.0001)
e de informação técnica (p=0.0001).
A leitura de jornais e revistas de espectáculos é cada vez
menos frequente à medida que aumenta a idade dos respondentes,
o mesmo acontecendo com a leitura de jornais e revistas técnicas
e de informação geral, embora com índices de leitura
mais baixa. Ao contrário, ser mais velho implica uma menor valorização
da banda desenhada.
Para assegurar algum controlo sobre as respostas anteriores, e também
para construir uma representação dos objectos de leitura
preferidos, foi pedida uma indicação de um máximo
de três títulos das revistas e jornais mais frequentemente
lidos. Pareceu interessante considerar a própria capacidade de
evocar aqueles títulos porque, de alguma maneira, aquela resposta
dar-nos-ia conta da relação afectiva, se assim se pode dizer,
que os sujeitos mantêm com os objectos que lêem.
Pudemos verificar que a capacidade de evocar aqueles títulos é
uma característica do grupo "de 13 a 15 anos" e "mais
de 16 anos". De facto, 69% dos sujeitos deste último grupo
indicaram três títulos de revistas enquanto 71,3% o fizeram
relativamente aos títulos de jornais; neste último caso,
e no grupo "de 10 a 12 anos", estes valores descem para 41%.
A mesma solicitação foi feita relativamente aos títulos
de livros e se compararmos livros e revistas, este último é
o tipo de material mais frequentemente identificado, sobretudo entre os
estudantes mais velhos.
A concluir
Como síntese, poder-se-á dizer que embora a leitura seja
reconhecida pelos estudantes como uma prática significativa, esta
atitude é de alguma forma contrariada pelas respectivas práticas;
a este respeito, pode dizer-se que os princípios afirmados ao nível
do discurso não encontram necessariamente correspondência
com as práticas culturais em que os estudantes preferem envolver-se.
A desvalorização efectiva da leitura entre os estudantes
mais velhos e a apetência pela leitura entre os mais novos impõe
a investigação das razões de tal atitude. Parece
que o material posto à disposição dos jovens do grupo
"16 anos e mais" não corresponde aos seus interesses;
por outro lado, podemos inferir algum tipo de decréscimo na promoção
da leitura entre estes estudantes ou, pelo menos, uma desconexão
entre tais acções e as expectativas dos estudantes.
Pais e professores parecem entender que os leitores são feitos
de uma vez para sempre nos primeiros anos de escolaridade e que a partir
daí a questão é tão só a de usar esse
ganho. No entanto, dada a perda de leitores observada após o 3º
ciclo, parece importante que as escolas assumam que os estudantes mais
velhos devem em contacto constante com actividades de promoção
da leitura, principalmente através da disponibilização
de materiais de leitura apelativos. Nestes níveis etários,
a preferência por actividades de grupo, mais que individuais, é
natural; no entanto, se os sujeitos crescem numa comunidade onde a leitura
é algo de tão natural como a prática de desportos,
por exemplo, ou onde necessidades de leitura são criadas, quando
chegarem à idade adulta é mais provável que tais
hábitos de leitura venham a emergir.
A escassa frequência de bibliotecas escolares ou públicas
é um dado importante, designadamente se tivermos em conta que a
rede de leitura pública dispõe de importantes infraestruturas
que, mais tarde ou mais cedo, serão inúteis se ninguém
as utilizar. Tendo estes resultados em mente, parece necessário
que as bibliotecas vão à procura dos seus leitores em vez
de ficarem à sua espera.
Devemos concordar que se as actividades de promoção de leitura
forem mais agressivas, a transição entre a infância
e a idade adulta, no que aos hábitos de leitura diz respeito, poderá
ser feita sem tantas perdas.
Notas
(1) Este texto corresponde à tradução de uma comunicação
apresentada pelos autores no 16th World Congress on Reading, Praga, 1996.
(2) São muito diversificadas as definições propostas
para literacia; de entre as diversas conceptualizações considere-se
a seguinte: "Literacia é, então, um conjunto de práticas
socialmente organizadas que fazem uso de um sistema de símbolos
e de uma tecnologia para o produzir e disseminar. A literacia não
é simplesmente saber como ler e escrever um guião particular,
mas aplicar este conhecimento para fins específicos em contextos
específicos de uso. A natureza destas práticas, incluindo
claro, os seus aspectos tecnológicos determinarão os tipos
de skills [
] associados à literacia" (cf. Scribner &
Cole, 1981).
(3) Vejam-se, entre outros estudos, Freitas & Santos (1992), Sim-Sim
& Ramalho (1993), Alçada & Magalhães (1993). Outros
trabalhos, não exclusivamente centrados em questões relativas
aos hábitos e atitudes de leitura, têm-lhe no entanto dedicado
um espaço significativo: Pais, Nunes, Duarte & Mendes (1994),
Silva & Santos (1995).
(4) Os dados apresentados neste quadro estão organizados em função
da variável "idade" por se considerar ser esta uma variável
mais pertinente na determinação da forma de ocupação
dos tempos livres; de facto, é de esperar que estas formas estejam
mais associadas à idade do que ao "ciclo de escolaridade",
embora, como já foi referido, haja entre estas variáveis
um grau de intersecção elevado.
Referências
Freitas, Eduardo & Santos, Mª de Lurdes L. dos (1992). Hábitos
de leitura em Portugal. Inquérito sociológico. Lisboa: D.
Quixote.
Magalhães, Ana Mª & Alçada, Isabel (1993). Os jovens
e a leitura nas vésperas do século XXI. Lisboa: Editorial
Caminho.
Pais, José M., Nunes, João das S., Duarte, Mª Paula
& Mendes, F. Luís (1994). Práticas culturais dos lisboetas.
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