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CONDIÇÕES SOCIAIS DE PRODUÇÃO DE LEITORES
TIJOLO COM TIJOLO NUM DESENHO (NEM SEMPRE) MÁGICO*
Mª
de Lourdes Dionísio de Sousa
(University
of Minho, Portugal)
SOCIAL CONDITIONS FOR THE PRODUCTION OF READERS
Abstract
This text aims to discuss some social conditions for the production of
readers in Portugal after April, 1974, mainly those which take place in
public libraries and schools. The analysis of the characteristics and
ways of functioning of those two places allow us to conclude that the
Portuguese politics of reading is affected by some discontinuities. Indeed,
school reading practices, particularly those carried out in the language
classroom, may still be characterised by some elitist understanding of
reading which is not coherent with the democratic principles that rule
the reading practices in the public library. These discontinuities may
be a factor for the loss of readers after compulsory school.
1.
"O homem mais sábio que conheci não sabia ler nem escrever".
Num momento em que agências e agentes, mais ou menos especializados,
partilham quase em uníssono a denúncia da falta de leitores
e apontam a pouca apetência dos portugueses para a leitura, o enunciado
de abertura do discurso de aceitação do Nobel da literatura
(paradoxal na pena de quem tanto escreve e não menos lerá)
pode ser levado na conta de um artifício retórico que nos
manuais escolares integra a lista das figuras de estilo que há
para aprender. Paradoxo ou não, provocação ou exibicionismo,
é certo que aquele sábio que não sabia ler nem escrever
deveria trazer à nossa consciência uma série de perguntas
que, às vezes por reverência, a maior parte das vezes por
pudor, nunca são colocadas quando a leitura ou a falta dela é
o centro das atenções.
2.
Sem quadro teórico de referência visível, sem a evidência
de dados sistematizados de natureza antropológica e etnográfica,
o caso daquele avô alentejano emparceira com muitos outros casos
(cf. Scribner & Cole, 1981; 1988) que têm posto em causa algumas
das "promessas" comummente associadas à leitura; promessas
que, no entanto, muitas vezes se verifica não serem cumpridas.
Com efeito, os estudos dos autores agora citados, a par, entre outros,
dos de Graff (1987; 1988), Havelock (1989), Harste & Mikulecky (1984),
Heath (1983), têm reescrito a história dando conta de como
nem se é mais sábio, nem mais rico nem mais poderoso só
porque se sabe ler e escrever1.
Nesta reescrita, as relações entre saber ler e desenvolvimento
cognitivo (no sentido piagetiano), "sucesso" social e económico,
por directas que possam parecer, são apresentadas como um fenómeno
extremamente complexo em que o modelo social jogará um papel determinante.
Se, quando interrogada a história, se verifica que não são
totalmente válidas as afirmações sobre a superioridade
cognitiva de quem lê, a mesma conclusão tem sido retirada
quando estudadas as relações entre índices de leitura
e bem-estar económico dos indivíduos e das sociedades2.
Em todos os casos, o desenvolvimento da literacia e, nela, mais especificamente,
da leitura, não parece ser capaz de condicionar, de forma relevante,
as estruturas sociais e económicas das sociedades ou a posição
dos indivíduos que as integram; outros factores como a classe,
a etnia e o sexo detêm, relativamente à desigualdade social,
um poder explicativo significativamente maior do que os níveis
de literacia:
"For most persons who
lack literacy skills, illiteracy is simply one factor interacting with
many others - class, race and sex discrimination, welfare dependency,
unemployment, poor housing, and a general sense of powerlessness. The
acquisition of reading and writing skills would eliminate conventional
illiteracy among many but would have no appreciable effect on other
factors that perpetuate the poverty of their lives" (Hunter &
Harmon, 1988, pp. 11-12).
O que as metáforas da
leitura como "adaptação", como "poder"
e, particularmente, a da leitura como "estado-de-graça"
(cf. Scribner, 1988) tendem muitas vezes a encobrir é a função
social distintiva e discriminatória que também pode ser
imputada à leitura, à semelhança de outras práticas
sociais que contribuem para a estratificação e divisão
social do trabalho3. Consequentemente, aquelas metáforas,
reproduzindo perspectivas etnocêntricas e unilaterais (na medida
em que os valores atribuídos à leitura são, maioritariamente,
os que um determinado grupo social lhe atribui (cf. Soares, 1988)), acabam
sempre por servir para a condenação da "falta de interesse
cultural" de determinados indivíduos e/ou grupos, para a responsabilização
de cada um, perpetuando ideais conservadores, concretamente, a concepção
de mobilidade social como função da responsabilidade e do
mérito exclusivos de cada indivíduo em saber aproveitar
os instrumentos que a sociedade põe ao seu dispor4.
A distinta valorização das funções sociais
da leitura e dos diferentes modos de ler que lhes andam associados - para
que serve ler e como se deve ler - supõe também diferentes
juízos de valor sobre as práticas de leitura dos indivíduos,
num determinado momento histórico-social; tenhamos como horizonte,
por exemplo, que, se por de trás dos conceitos de texto pode ser
sempre encontrada "uma ideologia" inserida "em sistemas
de pensamento e visões de mundo que desejam entender, quando não
dirigir, as formas de organização da sociedade", também
em articulação com cada conceito de leitura, e sobretudo
com a pedagogia dela, encontra-se uma "determinada visão do
homem e da história" (Citelli, 1988, p. 49). Por outras palavras,
as funções da leitura numa sociedade e as práticas
que por causa delas se promovem são "culturalmente relativas"5.
Intencionalmente, em alguns discursos sobre a leitura, nomeadamente naqueles
até agora referidos, põe-se em lugar de evidência
a natureza profundamente contraditória que reveste não tanto
a leitura em si, mas as políticas que promovem o seu desenvolvimento,
às quais subjazem sempre motivações ideológicas,
económicas e sociais específicas dos contextos históricos
particulares.
Não recusando, no entanto, que a incapacidade de usar a informação
escrita, se não chega a pôr em causa a sobrevivência
de cada um, é - como também se reconhece no primeiro estudo
nacional sobre a literacia dos portugueses (cf. Benavente et al., 1996)
- factor efectivo de exclusão social, de maior agravo das distinções
no acesso e na partilha da cultura comum, na mobilidade social, na vida
de cidadão:
"[...] les illetrés
vivent l'exclusion doublement: par une participation réduite
a la vie sociale, et par acrence de tout ce que l' écrit apporte
de spécifique" (Causse & Savier, 1988, p.31);
o que se objectiva, nestes
discursos, como estratégia de 'conscientização',
são as contradições existentes entre a proclamação
das vantagens económicas para as sociedades, que decorrem da leitura,
vista pelo seu lado utilitário (frequentemente endossado como condição,
por exemplo, para o "acesso pessoal ao emprego"), e a função
emancipatória que se lhe atribui e pela qual o leitor reconhece
"a sua identidade, o seu lugar na sociedade, as tensões que
animam o contexto em que vive ou sobrevive, e sobretudo a compreensão,
assimilação e questionamento seja da própria escrita,
seja do real em que a própria escrita se inscreve" (Osakabe,
1986, p. 152). Ora, se considerarmos que a leitura dota os indivíduos
com instrumentos para "questiona[r] as evidências" (Charmeux,
1994, p. 13), sobretudo, aquela pela qual o leitor "tem como norte
[...] chegar a um posicionamento, combatendo a simplificação
ou a superficialização da realidade via discursos que a
representam" (Silva, 1998, p. 34), mais criticamente entenderemos
as agendas subjacentes às políticas de leitura, quer as
que a visam promover quer as que regulam a sua instrução.
Por tudo isto, não é possível pensar os hábitos,
práticas e atitudes de leitura sem submeter a escrutínio,
por um lado, o que significa ler para cada sujeito e para os diferentes
grupos sociais, e quais os diferentes posicionamentos na leitura; e, por
outro lado, tanto as condições sociais de acesso à
leitura, como as de produção de leitores:
"se uma sociedade, através
dos seus organismos dirigentes, concebe a leitura como uma actividade
destinada à realização e ao bem-estar do povo ou uma actividade que
impede o surgimento da consciência e da racionalidade. É preciso saber,
enfim, se o objecto da leitura (livro ou similar) circula livremente
numa sociedade de modo a permitir a sua fruição por parte dos homens
que constituem essa sociedade" (Osakaba, 1986, p. 22).
Interrogarmo-nos sobre estes
tipos de condições significa perguntarmo-nos como são
produzidos os leitores, como são seleccionados, e, porque essa
é a ordem da leitura, como são formados (cf. Bourdieu, 1987).
Esta interrogação deve ainda ser alargada a questões
como: o que é que numa dada conjuntura conta como leitura? É
um direito social ou um poder privado? Que políticas educativas
promovem os níveis de leitura socialmente desejados?
3.
As atitudes que, assim, exigem a identificação dos lugares
de contradição para uma compreensão mais fundamentada
dos valores e práticas de leitura numa dada comunidade, radicam
num entendimento de leitura como uma prática socialmente construída
e não como um conjunto de capacidades individuais e universais;
partilham, igualmente, uma concepção de posse das capacidades
de ler e uso dessas capacidades como factos que não se implicam
mutuamente. Deste modo, e com as consequências que daí advêm,
não se pode assumir que se transformam imediatamente em leitores
os sujeitos que na escola adquirem a técnica de ler. A posição
social de leitor não exige apenas o domínio de uma técnica;
envolve também uma forma de posicionamento face ao escrito e às
práticas de apropriação dos sentidos textuais. Este
posicionamento, constitutivo da história pessoal de cada sujeito,
é uma função de um processo social mais vasto que
prescreve um conjunto de convenções sobre possibilidades
e impossibilidades inerentes às acções individuais
e sociais de leitura. Nesta perspectiva, leitores e leituras são
afectados pelas condições sociais em que a identidade do
leitor vai sendo construída; o mesmo é dizer que nem sentidos
nem práticas nem valores sobre a leitura podem ser dissociados
daquelas condições em que a construção do
leitor se processa.
3. 1.
A emergência, em Portugal, de estudos sobre práticas, hábitos
e atitudes, no quadro de uma maior atenção dada à
leitura ao nível da investigação, é um indicador,
podemos dizer apesar de todas as contradições, "saudável",
da preocupação do país com o estado da sua leitura.
Eco, ou não, de preocupações e pressões sócio-económicas
e culturais, as práticas discursivas que dão voz a estes
estudos servem, em primeiro lugar, para trazer à nossa consciência
a natureza e a (in)eficácia das políticas levadas a cabo
após a instauração da democracia cuja consolidação
supõe a democratização da cultura e das formas de
a ela aceder; mas servem, sobretudo, para que a partir deles se comecem
a identificar as arenas de conflito nem sempre captáveis nos discursos
consensuais e reprodutores de entendimentos dominantes sobre as funções
e as práticas de leitura. Acresce ainda à sua importância
o facto de nestas "formações de leitura" actuarem
filtros que, tal como noutras "formações", determinam
o que, a partir de uma posição social dada, numa determinada
conjuntura social, pode e deve ser dito (cf. Haroche, Henry & Pêcheux,
1971), participando, assim, na definição das condições
do exercício de leitura, nomeadamente a função de
leitor.
Num plano de concretização, diremos que quando se denuncia
a pouca apetência dos portugueses, por exemplo, pelos "textos
de qualidade", para além de se produzir a própria qualidade
desses textos, produzem-se simultaneamente, as condições
para a sua leitura e os sujeitos capazes de os ler.
3. 2.
Nos actuais regimes discursivos que produzem, no contexto português,
tanto textos como leitores, dois são particularmente "transparentes"
quanto à "ideologia" sobre a leitura que professam: o
do sistema educativo formal e o do serviço de bibliotecas públicas.
Produzidos pelos, e no interior, do(s) discurso(s) dominantes (não
necessariamente institucionais), é lícito pensar que, dada
a sua posição e função social, ao nível
dos seus princípios fundamentais e fundamentantes, ainda que por
diferentes dispositivos, aqueles dois regimes concorram para os mesmos
desígnios no que relativamente à leitura e à distribuição
da cultura compete: no combate sério à exclusão social,
na participação na diminuição de diferenças,
no assegurar de uma equilibrada distribuição nas formas
de aceder a novas oportunidades, na criação de condições
para o aprofundamento da cidadania. Concurso sem o qual, aliás,
não é possível pensar a produção de
leitores e a construção de uma sociedade letrada; ainda
mais quando sabemos das condições contraditórias
em que a escola de massas vai funcionando, entre outras coisas porque
nem sempre tem sido capaz de assegurar os mecanismos que anulam ou tendem
a enfraquecer significativamente as desigualdades que lhe pré-existem.
Salvaguardada a diferença de contextos sócio-políticos,
esta acção de complementaridade e reforço mútuo
entre a função da escola e a das bibliotecas ao serviço
de "todos e de cada um", gratuitamente, de forma a diminuir
algumas das diferenças geradas noutros lugares, é um princípio
que, remontando nos tempos, encontra, na criação das bibliotecas
populares uma forma de concretização (cf. Nunes, 1996).
Sabe-se do pouco impacto que estas bibliotecas tiveram junto da população.
Entre as razões que o podem explicar, informa-nos o bibliotecário
agora citado, encontram-se, para além de "carências
no aspecto técnico", a "falta de apoio do poder central".
Esta demissão, como é reconhecido, manteve-se pelos tempos
que se seguiram. As bibliotecas populares - para que a leitura entrasse
"por assim dizer em casa" - e cujo ideário postulava
a formação de cidadãos capazes de intervir politicamente,
foram suplantadas pelos lugares de "conservação do
património bibliográfico" onde a leitura era rigorosamente
"vigiada" (Nunes, op. cit., pp. 27-31) e, de certo modo, ao
serviço de uma forte estratificação social na qual
também participava a organização do sistema educativo.
No caso da escola, a leitura (àquela umbilicalmente vinculada)
constituiu desde sempre um dos objectos curriculares mais fortemente regulados
nos diferentes níveis do discurso pedagógico. No entanto,
a sua valorização escolar se, por um lado, é função
de um entendimento de leitura como meio privilegiado na (con)formação
moral e ideológica dos indivíduos, por outro, é uma
função do papel dos textos na preservação
do património linguístico e literário, por isso,
surgindo quase exclusivamente regulada no âmbito de uma disciplina
- a de Língua Portuguesa.
As mudanças sociais tendentes à criação de
novas condições de acesso à cultura e de produção
de leitores são um processo ainda em curso cujo limite temporal
a quo não coincide exactamente com o 25 de Abril, mas cujos contornos
necessariamente são ainda dele consequência.
Relativamente às bibliotecas, "não se pode dizer que
[tenham sido] uma preocupação prioritária da Revolução
dos Cravos" (Nunes, op. cit., p. 31); de facto, só cerca de
10 anos depois se consagra a existência de uma rede de bibliotecas
municipais que pretende concretizar uma política nacional de leitura
pública (Despacho 23/86).
Para a escola, e porque, como já foi dito, a leitura lhe é
intrínseca, é possível pensar, nas diferentes fases
da sua (sempre em curso) abertura às massas, uma parte do processo
que retira às elites o poder de ler; na medida em que se propõe
disponibilizar, a um maior número de cidadãos, alguns dos
instrumentos necessários para o desenvolvimento da capacidade de
ler textos, cria uma parte significativa das condições para
o exercício mais democrático de práticas de leitura
e de acesso aos saberes e outros bens culturais. Pode, por exemplo, a
abertura da escola à diversidade dos escritos ser vista como um
factor, de entre vários, desta democratização.
Mesmo assim, e pelo menos ao nível do discurso pedagógico
oficial, nem com a reforma curricular que entra em vigor em 1990 se afirma,
e define aberta e prioritariamente, uma política de leitura escolar,
nos termos, por exemplo, em que era afirmada e reivindicada no Manifesto
sobre a leitura pública em Portugal: "a leitura é condição
indispensável para o exercício da cidadania num país
democrático", contribuindo para "a afirmação
do indivíduo na comunidade, conferindo-lhe a possibilidade de exercer
plenamente o acto de escolher". A própria Lei de Bases do
Sistema Educativo (Dec. Lei 46/86 de 14 de Outubro de 1986), consignando
a biblioteca escolar como um recurso educativo entre outros, acaba por
não dar especial relevo ao seu papel e ao da leitura na educação
para todos.
Notemos, entretanto, que, no conjunto dos objectivos específicos
para a educação básica, ao nível, por exemplo,
da "dimensão das aquisições básicas e
intelectuais fundamentais" expressas nos documentos produzidos no
âmbito das actividades da Comissão da Reforma do Sistema
Educativo (Fraústo da Silva et al., 1988) a palavra "leitura"
não chega a ocorrer:
"O conhecimento dos
valores característicos da língua, história e cultura
portuguesa; a consciencialização de que a língua
portuguesa é instrumento vivo que se oferece à realização
de cada um; o reconhecimento de que a língua portuguesa é
instrumento de transmissão e criação da cultura
nacional; o domínio progressivo dos meios de expressão
e comunicação verbais e não verbais; a compreensão
da estrutura e do funcionamento básico da língua portuguesa
em situações de comunicação oral e escrita"
(pp. 205-206).
Anda a "leitura",
de facto, por ali; mas, para além de timidamente escondida no quadro
do que se tem vindo a designar, não muito claramente, diga-se,
como "educação linguística" (cf. Castro,
1997), a sua relevância permanece estabelecida por referência
ao papel que esta competência deve desempenhar no acesso, entre
outros, aos valores da língua. E apesar de nos programas que se
seguiram, por exemplo, para os 2º e 3º ciclos do Ensino Básico
e para o Ensino Secundário - 1990, passar a ser um objecto autónomo
de aprendizagem no conjunto das competências verbais a serem desenvolvidas
na disciplina de Língua Portuguesa, a leitura na escola continua
a servir como meio, mais do que a ser constituída como um fim.
Fez-se ouvir, é certo, em 1992, a máxima "todos os
professores são professores de Português"; com ela sintetizava-se
a disposição (Despacho Normativo nº 98-A/92) que (re)colocava
os objectivos relativos ao domínio da língua portuguesa
- por seu intermédio, também da leitura - num quadro "transdisciplinar":
"Nos três ciclos
do ensino básico todos os professores devem, no âmbito
da sua disciplina e no quadro da avaliação formativa,
pronunciar-se quanto à competência evidenciada pelos alunos
em relação ao domínio da língua portuguesa,
nomeadamente quanto ao desenvolvimento da sua capacidade oral e escrita".
Aqui, mais do que a diluição
da leitura, não é despiciendo fazer notar que o que se determinava
era a necessidade de avaliar os alunos (ainda que formativamente) nas
suas competências verbais; vale dizer, quanto a saberes que não
se jogam exclusivamente nas aquisições realizadas pela transmissão
escolar.
Continua a ser, portanto, no quadro dos objectivos da disciplina de Língua
Portuguesa que os programas oficiais do início desta década
definem (e redefinem) a função de formar mais e melhores
leitores.
Esta (re)definição de objectivos é, obviamente, reflexo
também das movimentações externas à escola,
designadamente, o sentir geral acerca dos défices de leitura6
e, naturalmente, o movimento criado à volta da leitura pública
que se ia paulatinamente instalando.
3. 2. 1.
Aquele movimento, que não se restringiu à produção
de legislação (de facto, acompanhando-a ou antecipando-a,
todo um conjunto de acções se desenvolve, desde congressos,
seminários, jornadas locais e publicações) constituiu
um dos actos mais relevantes de disseminação da importância
e urgência da democratização da cultura e de formas
outras de a conceber; particularmente, ao reivindicar uma biblioteca em
que o espírito da "divulgação" se sobrepusesse
ao da "conservação", que possibilitasse a "livre
circulação da informação e das ideias e a
criação de iguais oportunidades para todos
" (cf.
Nunes, Portilheiro & Cabral, 1986). O direito à cultura, à
informação, sem distinções, a necessidade
de adaptação dos recursos às necessidades das populações,
são, com efeito, referências constantes nos textos produzidos
e divulgados em torno do movimento de promoção da leitura
pública. A esta orientação e às formas da
sua concretização não é alheia a experiência
francesa que, a partir de 1982, iniciara, no meio de grande debate ideológico,
uma política global de leitura pública, "uma espécie
de plano de salvamento da leitura pública" (Nunes, 1996, p.
65) e cujos fautores chegaram a participar nas acções iniciadoras
do processo português. Coincidência, ou nem tanto, Portugal
vê-se na necessidade de começar a afinar pela Europa.
E se o objectivo estratégico de "pôr os portugueses
a ler" se transformou hoje numa das "prioridades estruturais"
do Ministério da Cultura - justificando, por exemplo, o investimento
de 48 milhões de contos até ao ano 2005, data em que a Rede
de Leitura Pública terá uma biblioteca em todos os concelhos
do país (cf. Declarações do Ministro da tutela, Público,
16 de Janeiro de 1998) -, a leitura de que agora se fala começa
a estar muito para além dos livros. Nela cabem todos os tipos de
documentos que permitem caracterizar as actuais circunstâncias como
uma "sociedade de informação" cujas condições
de acesso, mais do que nunca, podem ser factor de agravamento das desigualdades.
Não se traduziram apenas em condições físicas
(também arquitectónicas) felizes, os princípios do
direito à leitura e à informação. O alargamento
das funções nucleares da biblioteca à prestação
de serviços vários - centros de apoio a jovens, serviços
de voluntariado de apoio à leitura, por exemplo -, e à realização
de actividades de âmbito diversificado - dinamização
de conferências, animação da leitura infantil, exposições,
cinema, apoio às famílias, programas de informação7
- vem coincidindo com um alargamento do seu raio de acção
para fora das paredes do seu edifício central, consubstanciando
o conceito da biblioteca para todos; nos jardins, nas praias, nas prisões,
já em algumas escolas, a biblioteca tal como ela tem sido entendida
na rede, não é mais o lugar onde se vai, é o lugar
que chega até nós.
Entre os factores que podem ser aduzidos para a explicação
do "sucesso", pelo menos ao nível do desenvolvimento,
deste "projecto (de) vida" (tal lhe chamou Calixto, 1997), contar-se-ão,
sem dúvida, a clareza dos seus princípios orientadores,
as prioridades e metas bem definidas, a assunção exacta
de um projecto político e ideológico em contínua
transformação, nunca aceitando ter atingido o estado definitivo.
E se, por um lado, nas práticas discursivas que tem gerado são
cada vez mais recorrentes termos como actualização, modernização,
"cliente" (e já não leitor, utilizador), "gestão"
(de "recursos", de "qualidade", ...), termos que nos
aproximam (perigosamente?!) do discurso da empresa, mesmo assim, dificilmente
se anularão as suas potencialidades. De facto, as formas de cultura
que as bibliotecas acolhem e têm por objectivo disponibilizar e
o tipo de relacionamento que proporcionam entre os sujeitos e entre estes
e aquelas formas - menos marcado institucionalmente, em que os papéis
sociais se jogam numa relação mais horizontal, mais livres
porque em função de escolhas pessoais menos sujeitas à
regulação e valoração -, são particularidades
que as constituem num dos lugares mais susceptíveis de efectivamente
produzir leitores, apesar de ele sempre se ter assumido como um complemento
do outro lugar, a escola:
"Para o próprio
estado, não será, por exemplo, rentável estar a
investir verbas no ensino, se ao mesmo tempo não criar condições
para o desenvolvimento e integração dos conhecimentos
aí adquiridos, gerando-se situações de retrocesso
a níveis que poderão recair no analfabetismo, com o consequente
desperdício dos dinheiros despendidos com a escolarização
de grande parte da população portuguesa" (Manifesto
sobre a leitura pública em Portugal, 1983).
Partia-se, aqui, do princípio,
é certo, que as práticas de escolarização,
então a generalizar-se a toda a população, formariam
leitores que procurariam bibliotecas, à altura praticamente inexistentes
ou em funcionamento precário e quase restrito.
Os dados sobre a leitura nacional vindos posteriormente a público
não dão conta de tal acção da escola, nem
pelo lado da leitura nem pelo lado da apetência pelas bibliotecas.
Embora valorizada positivamente, a leitura não se encontra entre
as preferências dos jovens estudantes portugueses, no que à
ocupação dos tempos livres diz respeito; em 1995, mais de
60% dos 1651 jovens inquiridos num estudo nacional afirmaram que nunca
ou quase nunca frequentavam as bibliotecas (cf. Castro & Sousa, 1996).
3. 2. 2.
O facto de a leitura ser uma prática naturalmente transversal ao
currículo permitiria vê-la configurada como o objecto ideal
para levar a cabo, no sentido da sua promoção, um projecto
colectivo com características outras que não as que assume
tal como está insulada na disciplina de Língua Portuguesa.
Regulam os saberes próprios desta disciplina - também os
da leitura - princípios de definição e distribuição,
afectados pela "tradição selectiva", e valores
que não serão totalmente solidários com condições
em que pontifiquem a igualdade de textos, leitores, leituras.
A defesa da língua, o valor patrimonial da literatura e o seu capital
linguístico, produtos daquela "selecção"
e dos valores fortes da "classificação" e do "enquadramento",
de certa forma podem ser vistos como incompatíveis com alguns dos
princípios reivindicados por políticas de leitura vocacionadas,
por exemplo, para a formação de leitores críticos,
como aliás se diz esperar ao nível do discurso pedagógico
oficial; "máscara retórica" obviamente, uma vez
que as formas da sua operacionalização são, como
tudo indica, inconsequentes (cf. Sousa, 1999).
Efectivamente, aquilo para que apontam as práticas discursivas
que estruturam os eventos de leitura nas aulas de Português, particularmente,
as configuradas nos manuais escolares - dispositivo central na regulação
deste tipo de encontros - é, por meio de práticas em que
pontua um forte controlo sobre as possibilidades e impossibilidades interpretativas,
uma concepção vincadamente elitista de textos e leitores,
uma concepção redutora de leitura e do significado do seu
exercício. Pelos textos seleccionados e pela forma como estes se
dão a ler produz-se e reproduz-se uma limitada e limitadora representação
de literatura face à qual a atitude privilegiada é a da
reverencialidade para com estes usos "superiores" da língua.
Por dispositivos discursivos, mais ou menos subtis, a atitude de leitura
que se naturaliza e universaliza, dispensado o leitor de qualquer tarefa
hermenêutica relevante, é a de receber, aceitar e reproduzir
os sentidos e juízos produzidos por uma autoridade sem rosto (cf.
Sousa 1999).
Não prevendo interrogação, reflexão, diferença,
sujeitos individuais, tudo nestas condições contribui para
a reprodução do carácter selectivo da leitura, para
a exlusão de outros escritos, de outros sentidos, de outras leituras,
para socializar e reproduzir identidades, estruturas de autoridade e poder;
enfim, tudo parece confluir para exilar espécies particulares de
leitores.
A caracterização das condições da leitura
escolar agora traçada não deve ser entendida, devemos reconhecer,
como denominador comum de todas as condições existentes
na escola. A aula de Português é, naturalmente, apenas um
dos lugares onde os indivíduos constroem a sua posição
social de leitores, mas, no que à leitura diz respeito, é
um lugar determinante, não só porque aí se dotam
os sujeitos com a técnica básica que a torna possível,
mas também porque é neste lugar escolar específico
que se produzem os sistemas de intelegibilidade pública e colectiva
e, discursivamente, se posicionam os sujeitos por referência quer
aos conjuntos de significados aí produzidos quer aos modos legítimos
da sua produção.
Nesta perspectiva, o estatuto das condições que, no âmbito
da disciplina de Língua Portuguesa, configuram o contexto de transmissão
e aquisição da competência de leitura torna-as particularmente
relevantes, não apenas enquanto objecto de escrutínio, mas,
sobretudo, pelo facto de ser aqui que, porque em maior e mais directa
articulação com o poder e o controlo (já não
tão sentido, por exemplo, na leitura que se faz em qualquer outra
disciplina ou mesmo nas salas dos alunos e nas bibliotecas escolares -
quando as há), se naturalizam as capacidades sancionadas pela escola
como legítimas para a leitura dos textos, os valores a atribuir-lhes,
as concepções de texto socialmente válido, os valores
da leitura e o papel do leitor. É por referência a estas
condições, por exemplo, que os sujeitos (mesmo os não
escolares) são avaliados; é ainda por referência a
elas que se define um texto socialmente válido e este é,
na escola, o texto literário8 com tudo de distinção
que ele acarreta consigo.
Assim, no reconhecimento de que "[...] becoming literate in itself
will neither enslave nor emancipate the individual. However, how one becomes
literate - what one learns of the sites, locations, practices of writing
and reading - will greatly constrain how one conceives of the potential
of literacy" (Luke, 1991, p. 22), e ao proceder àquele escrutínio,
encontramos algumas das respostas que possibilitam compreender por que,
de entre aqueles que saem da escola, nem todos se identifiquem como leitores,
nem todos reconheçam à leitura uma função
outra que não a do ritual escolar.
Neste quadro, e ao contrário do que as bibliotecas da rede de leitura
pública prevêem e potenciam - "assegurar o acesso dos
cidadãos a todas as formas de expressão cultural
"
e "facilitar o desenvolvimento da capacidade de utilizar a informação"
(UNESCO, 1994) -, as práticas de leitura em que os sujeitos são
envolvidos na sua formação mais não serão
do que um outro mecanismo de sonegação cultural, agora já
não só dos bens simbólicos, mas em igual medida das
possibilidades de formação dos indivíduos:
"uma democracia que
oferece as alternativas de actuação ao mesmo tempo que
sorrateiramente vai sonegando as possibilidades de formação,
ou as vai substituindo por simulacros supletivos, não é
uma democracia" (Seixo, 1999, p. 131);
a não ser, continuando
com a autora agora citada, "que continuemos a apregoar as delícias
da democracia, conservando ao mesmo tempo uma concepção
classista da cultura, onde noções como o "gosto",
"a formação no seio familiar" ou o "talento
específico" do indivíduo imperem e sobrelevem o resultado
de uma elaborada actividade de formação" (Seixo, op.
cit., p. 122).
A cidadania que estas práticas configuram não irá
muito para além da ordenada participação no consumo.
A inconsequência mostrada ao nível do projecto da escola
para a formação de leitores, concretamente entre as formas
de operacionalização do ensino da leitura e o discurso pedagógico
oficial, em particular, os objectivos programáticos (consensualmente
acarinhados) de formar mais e melhores leitores, é um facto que
não pode ser desligado do lugar de geração das vozes
que se fazem ouvir naquelas formas. E este lugar, por via dos manuais
que dão corpo às práticas de ensino da leitura, é
cada vez mais, o mercado, com tudo de subordinação a uma
lógica de lucro que isso acarreta. Quando assistimos, dada a omnipotência
e omnipresença do manual, a tal deslocação dos lugares
de delimitação dos saberes pedagógicos, a leitura
torna-se também ela num objecto de consumo, e a sua pedagogia uma
prática industrializada e standartizada (que explicará a
elementaridade e assepticidadade dos conteúdos) que não
pode exibir outra natureza que não a reprodutiva; quando professores
e alunos são, literalmente, os clientes, assim envolvidos no seu
próprio processo de descapacitação (cf. Apple, 1986;
Castro, 1998), ficam definitivamente em causa os objectivos educativos
da escola de massas, cuja validade aos interesses económicos não
interessa questionar, sobretudo porque o investimento das empresas editoriais
ou, não muito longe daqui, dos conglomerados multinacionais de
multi-media,
"is capitalised upon
at multiple levels by the modern corporation" (Luke, 1991, p. 20).
4.
Ficando a escola, com toda a probabilidade, a meio caminho (o que já
não é difícil de verificar) na transformação
de todos os indivíduos em leitores, reforçando, assim, as
paredes já de si bem erguidas entre as suas práticas e as
de outros lugares sociais, às bibliotecas da rede de leitura pública
colocam-se problemas que, não podendo ser pensados ao nível
do esvaziamento das suas funções, podem contudo vir a ser
limitadores da sua acção. Numa lógica perversa, poder-se-ia
considerar que, em circunstâncias político-educativas demissionárias
da função de formar leitores, a existência e desenvolvimento
das bibliotecas públicas não seria mais do que uma outra
forma de mascaramento, ao serviço do reforço de concepções
meritocráticas e de uns happy few que podem e sabem usar os "benefícios"
que a sociedade vai pondo à sua disposição.
Já constituídos como arena de conflito, e em função
do que ao nível dos discursos se vai produzindo, é possível
hipotetizar duas formas que podem vir a revesti-los e às quais
corresponderão outras tantas formas na (re)definição
do papel das bibliotecas na produção de leitores.
A primeira, apelaria a uma função "substitutiva"
ancorada em argumentos que invocam o papel inegavelmente formativo daquele
contexto o que, levado às últimas consequências, se
concretizaria em "programas de formação" com todos
os riscos de replicação da escola que isso acarretaria e,
assim, de reprodução, noutro lugar, da mesma ordem de coisas9.
Não seria sem consequências esta deslocação
do poder na ordem educativa relativamente à leitura. E uma, a mais
gravosa, seria a potencial contribuição para a demissão
da escola a qual, no entanto, não pode deixar de ser, a este respeito,
igual e fortemente responsabilizada. De passagem, e anotada a tendência
para uma certa tecnocratização das práticas discursivas
da biblioteca pública, não é demais pensar riscos
de outro tipo, como, por exemplo, a deslocação do locus
de controlo da educação para um lugar ainda mais permeável
do que a escola à acção de forças cujos interesses
não se jogam prioritariamente na distribuição igualitária
da cultura e da educação; a questão não se
colocando então apenas ao nível da mudança de empresa,
mas antes ao nível da diferença da origem e natureza dos
discursos que sobre uma e outra exercem controlo.
Em alternativa, coloca-se à biblioteca funcionar como contra-poder.
Por um lado, pela assunção de uma posição
crítica e divergente relativamente ao discurso produzido, no seu
interior ou fora dele, na e para a escola, especificamente ao nível
das concepções de leitura, leitores, textos; por outro lado,
pela reivindicação de condições em que a leitura
se apresente como uma actividade significativa para todos indistintamente,
não como um factor de "sobrevivência" numa sociedade
dominada pela informação, mas como uma prática "inclusiva"
que crie condições para o reconhecimento das contradições
sociais, dos caminhos de vida alternativos, da consciência de um
"projecto de vida" em que, a par de todos, se possa exercer
plenamente a cidadania; pela defesa de formas outras de relacionamento
dos sujeitos com os textos, do papel da escola na formação
de leitores não só ao nível da aquisição
de instrumentos de leitura, mas também na promoção
de atitudes; pela reivindicação ainda da complementaridade
entre escola e biblioteca ao contrário de um entendimento faseado
das suas acções.
Se tivermos em conta a pressão que os discursos produzidos no seio
da rede de leitura pública têm vindo a exercer sobre a escola,
no sentido do desenvolvimento das bibliotecas escolares, cuja eficácia
é bem visível com o lançamento da respectiva rede
(cf. Despacho Conjunto nº 43/ME/MC/95 de 29 de Dezembro; Veiga, 1997),
não se pode deixar de dizer que este parece ser o caminho escolhido;
não se pode, no entanto, também deixar de dizer que, e na
linha dos cenários até agora traçados, o verdadeiro
significado da criação desta rede jogar-se-á, sobretudo,
na capacidade de redefinição das práticas discursivas
sobre a leitura na escola.
5.
Se falar de leitura é, sempre, "to tell a particular historical,
institutional, and social history about what counts as reading
"
(Morgan, 1990, p. 327) o que as actuais condições sociais
criadas para a sua prática nos desenham é uma construção
pouco sólida, marcada por algumas descontinuidades. Estas, ao nível
das representações da leitura que permitem construir, das
suas possibilidades e impossibilidades, podem ser um factor explicativo
não só para a descontinuidade das leituras dos indivíduos,
mas mais, do que isso, para o afastamento dos leitores.
Não deixam, naturalmente, os indivíduos de ler. Não
podem! No entanto, e nestas circunstâncias, tudo se combina para
que sejam pouco prováveis práticas de leitura perspectivadas
enquanto um direito para, dolorosamente, se imporem como um dever. Terão
por isso ainda mais significado, tanto individual como sociologicamente,
as leituras que, não sendo por dever, se continuam a fazer num
circuito o qual, aproveitando de posições várias,
passa pelo consumo de produtos de leitura que os socialmente estigmatizados
como não leitores reconhecem como seus, porque ilegitimados pelos
outros, os que se arrogam da condição de leitor.
Nesta lógica, a escola de massas sem formação de
leitores tende a perpetuar a co-existência de dois círculos
de leitura distintos, de fronteiras bem definidas, progressivamente menos
permeáveis à sua intersecção, eventualmente,
nas bibliotecas.
Notas
* Texto já publicado na Revista Portuguesa de Educação,
1999, 12(1), pp.127-148.
- Trazem estes estudos
também à nossa consciência o facto de a leitura
não ser, ao longo da história, uma prática socialmente
reconhecida como intrinsecamente boa, quer no plano individual quer
social, pelo contrário; recordemos, por exemplo, certas movimentações
pedagógicas do século 19 em alerta contra os perigos da
leitura em excesso ou, ainda, para além da mais célebre
rejeição da leitura, a de Platão, no diálogo
Fedro, posições como a de Schopenhauer que condenava a
leitura porque esta anularia a capacidade de pensar por conta própria
(cf. Zilberman, 1986; 1997).
- A Suécia
do século 17 ou a Inglaterra do século 18, por exemplo,
e ainda segundo Graff (1987; 1988), parecem ser desses casos em que
a generalizada capacidade de ler não teve muito efeito na estrutura
económica da sociedade; veja-se também Luke (1991).
- A este propósito,
Jack Goody e Ian Watt são particularmente assertivos ao discutir
as consequências da literacia quando afirmam: "Achievement
in handling the tools of reading and writing is obviously one of the
most important axes of social differentiation in modern societies"
(p. 31).
- Esta imputação
individual não deixa de ser estranha se olhada à luz de
algumas motivações subjacentes ao apelo à leitura.
De facto, não podemos esquecer que por detrás do "ler
é preciso" estão também em causa valores de
mercado - os livros que não se vendem, as livrarias que têm
de fechar, as editoras que não sobrevivem - valores que são
do lucro e que, como tal, não radicarão, em primeira instância,
na preocupação com o bem-estar e o sucesso social dos
indivíduos. Por outro lado, a valorização da leitura
que acaba por mitificar o livro (não sendo por isso estranho
que a crise da leitura se confunda, num grande número de casos
com a crise do livro, de um determinado livro), nem sempre encontra
correspondência nas práticas sociais. Aqui actuam vários
"mecanismos de sonegação e distribuição
selectiva" da cultura que impede determinados grupos sociais de
se tornarem leitores apesar de se lhes ter permitido que aprendessem
a ler (cf. Soares, 1988).
- Em Fingeret (1990)
encontramos uma crítica contundente a determinadas campanhas
de promoção da literacia, aquelas que, visando apenas
dotar os indíviduos de instrumentos limitados ao desempenho de
tarefas específicas, resvalam para formas de manutenção
dos dispositivos actuais de distribuição da riqueza e
do poder, em nada contribuindo para a efectiva mudança dos estados
de coisas económicos e sociais.
- Por esta altura
ainda não se conhecem os primeiros estudos sobre a leitura dos
portugueses; o primeiro, de Eduardo Freitas e Mª de Lurdes Santos,
virá a público em 1992.
- Destas notícias
são eco as revistas e boletins informativos editados por algumas
bibliotecas públicas ou associações delas como
é, por exemplo, o caso de Bibliomédia, revista da Associação
de Bibliotecas da região dos vales do Ave, Cávado e Sousa
e de Biblioteca Pública e Liber Polis, boletim e revista, respectivamente,
da Associação para a Promoção e Desenvolvimento
da Leitura Pública da Área Metropolitana de Lisboa - Liber
Polis.
- Não virá
a despropósito recordar a última prova nacional para o
12º ano B, na qual um texto de Cesário Verde era usado para
uma leitura eferente da maior banalidade; tal leitura poderia, em rigor,
ser feita, com maior respeito pela inteligência e conhecimentos
dos alunos, a partir de um qualquer texto de divulgação.
A presença da literatura numa prova com aquelas características
não é mais do que a visibilização de um
dos dispositivos escolares que, a par de outros, participam na definição
do corpus textual legítimo.
- Esta versão
mitigada de escola já está contemplada no próprio
Manifesto da UNESCO sobre bibliotecas públicas onde, entre os
vários objectivos, se pode ler: "Apoiar a educação
individual e a auto-formação, assim como a educação
formal a todos os níveis"; "Apoiar, participar e, se
necessário, criar programas de alfabetização para
os diferentes grupos etários".
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