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A
LEITURA E A ESCRITA EM CONTEXTO ESCOLAR:
PARA A CARACTERIZAÇÃO DE UM CAMPO DE INVESTIGAÇÃO
Rui Vieira
de Castro
Neste texto, considerarei
algumas questões re-lativas ao ensino e à aprendizagem da
leitura e da escrita na escola e aos princípios e condições
de construção e disseminação do conhecimento
sobre aquelas práticas.
Leitura, escrita, questões
de relevância
Analisarei, no âmbito da primeira das dimen-sões referidas,
certos aspectos de alguns tópicos que julgo mais centrais, designadamente:
a relevân-cia, nas sociedades contemporâneas, das competên-cias
de leitura e escrita e a importância pessoal e social que a sua
actualização adequada reveste; o papel da escola na promoção
destas competências e os resultados da intervenção
escolar.
Nas nossas sociedades, os cidadãos interagem frequentemente com
textos escritos cuja função é a regulação
dos comportamentos sociais, com textos escritos que são elementos
constitutivos de contex-tos de trabalho, com textos cuja leitura é
condição para a obtenção de informação
relevante; há, por outro lado, cidadãos que lêem para
se recrearem, eventualmente com intenções de fruição
estética. Os actos de leitura que assim se configuram envolvem
diferentes situações de leitura, diferentes objec-tivos,
diferentes textos; nuns casos, tais actos aparecem fortemente vinculados
a outras tarefas (o que, inclusivamente, pode fazer com que possam não
ser entendidos como leitura propriamente dita1, nou-tros casos, surgem
como práticas relativamente au-tónomas; em certas situações,
os conhecimentos pré-vios dos leitores são especialmente
relevantes e a motivação para a compreensão é
elevada, noutras si-tuações, os constrangimentos externos
podem ser de-terminantes e ser menor a mobilização da enciclopé-dia
dos leitores; podem as práticas de leitura ter lugar sobre textos
altamente tipificados ou podem ocorrer sobre textos de natureza mais complexa,
por exemplo, literários.
É certo, entretanto, que um mesmo texto pode admitir a realização
de diferentes objectivos de leitura e, correlativamente, textos de caracterís-ticas
muito diversas podem ser objecto do mesmo tipo de práticas. Ouçamos
Marie-Constance G., a Leitora: "Eric está muito atento. Escuta
com uma espécie de paixão contida. Eu própria, curiosamente
arrastada pela minha voz, tenho a impressão, ao ler, que este poema
é como que um extraordinário mecanismo, uma obra de relojoaria
cujas peças e ar-ticulações poderiam ser desvendadas,
se eu quises-se, se me desse ao trabalho, se ainda fosse capaz daquelas
interpretações de texto que fazia na fa-culdade, parece
que nada mal, segundo me diziam, e que prometiam um futuro que não
foi o meu [
]" (Je-an, 1986, p. 53). Leitura "ocupacional"
e "leitura recreativa" aqui se entrecruzam, a voz de uma lei-tora
que não quer, ou não consegue, limitar-se a uma mediação
entre o texto e um receptor segundo.
Julgo ser óbvia a importância que assume nas sociedades contemporâneas
a capacidade de construir sentido(s) com os textos escritos. Tal relevância
poderia ser suficientemente demonstrada mesmo que considerássemos
apenas a leitura "ocupacional"; de facto, é reconhecido
que, nas sociedades industria-lizadas, um significativo número
de posições de trabalho supõe que os seus detentores
vejam em al-guma medida regulados os seus comportamentos e de-sempenho
profissional pela capacidade de reconhecer textos escritos, capacidade
que, além disso, se ar-ticula significativamente com aspectos como
a mobi-lidade profissional, a participação na vida das or-ganizações
e instituições, etc. Situados num plano de alguma generalidade,
devemos reconhecer que o desenvolvimento tecnológico tem feito
emergir novas formas de comunicação; mas tal tem-se traduzido,
também, na criação de novas necessidades relativa-mente
às capacidades de usar a linguagem escrita; a complexificação
da sociedade implica maiores exi-gências sobre os cidadãos
e a consequente elevação dos critérios de literacia
(cf. Bullock et al., 1975, p. 11).
Por outro lado, e focalizando agora a nossa atenção sobre
as práticas de leitura "voluntária", ainda que
recusemos, com Pennac, o princípio de que "quem não
lê deve ser considerado a priori como um potencial selvagem ou um
cretino irrecuperável", parece justo que com ele aceitemos
a ideia de que "a leitura "humaniza o homem", de que "somos
um pouco mais humanos - compreenda-se, um pouco mais solidários
com a própria espécie (um pouco menos "animal selvagem")
- do que antes, depois de termos lido Tchekov" (Pénnac, 1993,
p. 144); a leitura é uma prática potencialmente capaz de
nos fazer ace-der a outros modos de ver o mundo e de conhecer os outros
e, nesse sentido, capaz de possibilitar uma melhor compreensão
de nós próprios e dos contextos sociais que nos cercam.
Neste quadro, a leitura pode ser assumida como um valor positivo e, como
tal, incentivada e promovida. E neste campo a esco-la tem um papel dificilmente
contornável.
A promoção da leitura é, porém, uma tarefa
cuja realização parece não encontrar condições
com-pletamente favoráveis nas sociedades contemporâ-neas.
Dados disponíveis, referentes a vários con-textos nacionais,
revelam-nos a leitura, e sobretu-do a leitura realizada sem determinações
que não seja a vontade própria, como prática infrequente.
A este propósito, alguma argumentação tem sido produzida
no sentido de evidenciar as incongruên-cias entre a leitura e uma
"civilização do olhar" que geraria um efeito de
crença na possibilidade de tudo se poder exprimir e aprender através
da ima-gem2. Mas não parece que a causa principal para fac-tos
deste teor possa ser encontrada na concorrência de outros modos
de comunicação3; outras explicações têm
relevado a importância dos contextos de origem e de inserção
social dos sujeitos. Eduardo Freitas e Mª Lourdes Santos, analisando
os hábitos de lei-tura dos portugueses, puderam verificar o facto
de o perfil dos "pequenos leitores" de livros envolver "baixos
níveis de instrução, profissões pouco qua-lificadas
[
] pais com idênticas características e reduzido contacto
com a leitura na infância [
] traços negativos que se
reencontram de forma agra-vada no perfil dos não-leitores de livros";
por ou-tro lado, os mesmos autores constataram a associa-ção
"entre hábitos actuais de uma leitura continua-da, intensiva
e cumulativa, níveis de instrução elevados e profissões
qualificadas e um modo posi-tivo de socialização primária"
(Freitas & Santos, 1992, pp. 71-78). Há porém quem,
nesta linha de ar-gumentação, seja mais assertivo:
Mais que faudrait-il donc pour qu'ils plongent avec bonheur dans l'univers
des mots? Ça va sûrement vous paraître idiot, mais
c'est ainsi: d'abord, il leur faudrait des livres
Un enfant sur
quatre en pos-sède moins de cinq. Les plus démunis? Les
enfants de familles ouvrières et les agriculteurs. Et toutes les
études le démontrent: sauf exception, si les pa-rents ne
lisent pas, les enfants non plus (Roy, 1988, p. 29).
Apesar de a afirmação
do declínio de uma soci-edade de letrados se registar em múltiplos
contex-tos nacionais, tal não significa que este diagnós-tico
seja inquestionável. Na ausência de elementos fiáveis
de comparação em outras sincronias, e dado o ainda escasso
conhecimento que hoje detemos sobre as nossas realidades, torna-se difícil
estabelecer a exacta medida em que algumas das crenças e opini-ões
mais divulgadas têm correspondência empírica. Porém,
a consideração de dados relativos a outros países
pode, a este propósito, fornecer-nos algumas pistas de reflexão;
partindo de uma interrogação - "are we becoming a society
of subliterates?", Char-les Suhor convoca dados de diversos estudos,
evi-denciando as diferenças e as contradições dos
re-sultados obtidos, referindo-se explicitamente a trabalhos que contradizem
o declínio das capacida-des de compreensão (cf. Suhor, 1984,
p. 17); Harste e Mikuleky referem, para o caso americano, estudos que
mostram que a percentagem de tempo ocupada pe-los adultos com a leitura
"recreativa" é altamente significativa; por outro lado,
parece que também a leitura no âmbito do trabalho tem crescido
rapida-mente (cf. Harste & Mikuleky, 1984, pp. 63-65).
As capacidades associadas à leitura e à escri-ta ganham
particular importância na escola. Se a capacidade de operar com
textos escritos se apre-senta como condição para uma intervenção
significa-tiva dos sujeitos num grande número de situações
de vida, ela assume especial relevo nos processos edu-cacionais. De facto,
as organizações educativas formais caracterizam-se por um
elevado grau de exi-gência relativamente aos usos da linguagem dos
su-jeitos que nelas actuam, designadamente alunos e professores; se as
tarefas desenvolvidas no quadro dos fenómenos educativos são
sobretudo de natureza linguística, elas estão com enorme
frequência anco-radas em textos escritos, na sua produção
e no seu reconhecimento. E parece claro que a relevância destes
materiais cruza transversalmente todas as áreas do currículo,
válidos que são tanto para as línguas como para as
ciências sociais, para as ci-ências exactas ou a expressão
plástica. Os textos que aí se lêem e escrevem são
factores decisivos na criação de condições
para a aquisição de saberes académicos e sociais
e são igualmente um instrumen-to de avaliação fundamental
nas aprendizagens rea-lizadas. E estes são, por si, argumentos
decisivos para a valorização das competências de leitura
e escrita em contexto escolar; sob pena de se intro-duzir um factor insustentável
de perturbação qual seja o facto de, num domínio
em que à escola cabem especiais responsabilidades, a desconexão
entre a importância conferida àquelas competências
na ava-liação e a que lhes corresponde no trabalho pedagó-gico
poder volver-se na criação ou no reforço de desigualdades
pré-existentes ou coexistentes com a escolarização.
O que envolve também a necessidade de equacionar o próprio
conceito de "literacia":
Effective mastery of literacy
involves using reading and writing together with full recognition and
use of social context. [
] When literacy is viewed as a perfectable
skill as opposed to a functional vehicle of thought that is part of a
social context, many of the benefits of literacy are lost not only for
the individual, but also for society. [
] The conceptual gap is wide
between literacy as basic skills and li-teracy as exploration and expansion
of human poten-tial in varying social contexts (Harste & Mikuleky,
1984, pp. 72-3).
Se nos situarmos no plano
do discurso pedagó-gico oficial produzido contemporaneamente em
Portu-gal, podemos constatar que a valorização das compe-tências
verbais que têm como objecto o texto escri-to é recorrente,
sendo a valorização da língua ma-terna claramente
visível em textos originados nos diversos níveis de produção
discursiva no campo pe-dagógico4.
Assim, na Lei de Bases do Sistema Educativo (LBSE) considera-se que todos
os espaços curricula-res são lugar de desenvolvimento sistemático
e ori-entado de competências no domínio da língua
materna (artº 47º 7.). No quadro dos textos produzidos no âmbito
da Comissão de Reforma do Sistema Educativo, interessa realçar
a importância conferida no texto da Proposta de reorganização
dos planos curricula-res
à língua materna quando,
entre outros aspec-tos, se postula o "[
] contributo de todas
as maté-rias para a consolidação, reforço
e aperfeiçoamento da expressão oral e escrita em língua
portuguesa" (Fraústo da Silva et al., 1988, p. 218). O Decreto-Lei
nº 286/89 de 29 de Agosto de 1989, pelo qual foram estabelecidos
novos planos curriculares para os ensinos básico e secundário,
vem de novo acentu-ar a importância de todas as componentes curricula-res
no ensino e aprendizagem da língua materna, afirmando-se a necessidade
da sua contribuição para desenvolver nos alunos as capacidades
de compreen-são e produção de enunciados escritos
e orais; con-sequentemente, o domínio da língua aparece
definido como "formação transdisciplinar".
Esta valorização diferenciada das competências verbais
é também visível em textos que concretizam as orientações
de política educativa a que atrás nos referimos. Dos textos
programáticos aos norma-tivos sobre avaliação é
constante a reafirmação da importância da escrita
e da leitura nos planos da aprendizagem e da avaliação.
Não sendo este o lugar para equacionar os princípios e as
condições de re-alização desta orientação,
convirá sobretudo assi-nalar o seu valor simbólico enquanto
expressão de um princípio político de valorização
da língua ma-terna como objecto pedagógico.
Naturalmente, falar em "aprender a ler" não faz sentido
apenas quando se elege como referente a escola. Mas é certamente
verdade para uma signifi-cativa parte de nós que se somos leitores,
hoje, somo-lo por causa da escola. A escola ensinou-nos a ler, primariamente,
porque foi aí que de modo mais ou menos generalizado aprendemos
a fazer sentido, literalmente, com a palavra escrita; foi aí que
aprendemos, num processo simultaneamente penoso e deslumbrante, a relação
de equivalência entre o si-nal gráfico e a palavra de nós
já conhecida ou que, então, passou a fazer parte do nosso
dicionário. A escola ensinou-nos a ler, em segunda instância,
quando, num processo às vezes já mais penoso que deslumbrante,
nos ensinou a associar aos textos de-terminados sentidos; isto é,
alguns de nós, em al-gumas situações, passaram a
aprender que os textos diziam coisas, mas também que essas coisas
que di-ziam não eram só por nós, e provavelmente
nem so-bretudo por nós, definíveis; ler passou a ser um
dizer sobre que nos era em grande medida exterior; então, a nossa
formação como leitores passou a ter lugar ao lado da escola
ou apesar da escola, mas ainda e sempre por causa dela. Mas este é
um cená-rio contraditório porque outros de nós, mais
feli-zes, guardam na sua memória um professor, uma aula, um texto
lido, que marcaram a sua vida de leitores. E foi quando nada disto aconteceu
que a escola fa-lhou.
Em alguma medida portanto, e pelo menos em al-guns casos, a escola cumpre
uma função: ensina a decifrar o escrito, ensina a construir
sentido com aquilo que lemos, possibilita o acesso a textos, autores e
modos de ler esses textos e esses auto-res. A nossa memória de
leitores com certeza que aí se construiu em grande parte: e não
só a memória dos grandes textos literários, mas também
a dos textos "fúteis", mas significativos - o condor,
o falcão, o mundo de aventuras, ao lado dos textos políticos,
dos ensaios mais variados, etc. A nossa enciclopédia, naturalmente
nuns casos de modo mais extenso do que noutros, é, pois, constituída
por ressonâncias de textos que lemos, de textos que ou-vimos ler
na escola e nas aulas.
Apesar disso, é iniludível o desconforto com que se olha
a escola quando falamos da leitura, dos hábitos de leitura que
a escola não consegue criar, dos leitores competentes que a escola
não consegue "produzir". E aqui é visível
uma profunda contradi-ção entre a representação
que as agências e os agentes educativos fazem das suas funções
- a esco-la vista como depositária, por excelência, das com-petências
e da transferência das competências de leitura e escrita -
e a avaliação que aí mesmo é feita, afirmando-se
constantemente a falência, ain-da que relativa, do seu programa:
os alunos não lê-em, os alunos lêem mal, os alunos
não sabem falar, os alunos não sabem escrever. Opiniões
expressas por professores e educadores, análises vindas a lume
na comunicação social, conclusões de alguns estudos
traduzem com frequência certa incomodidade e desencanto perante
os efeitos das práticas esco-lares na promoção de
capacidades, atitudes e conhe-cimentos no âmbito da leitura e da
escrita. De fac-to, é aqui - na escola - que alguns pretendem en-contrar
causas para o declínio de hábitos e capaci-dades de leitura,
em função, por exemplo, dos tex-tos que se escolhe ler,
das dimensões textuais que são privilegiadas, ou então,
das orientações de leitura que são valorizadas, designadamente,
atra-vés de uma especificação exagerada de sub-capacidades,
visível sobretudo em contextos não na-cionais (tendência
que a última reforma do currícu-lo entre nós realizada
pode, de alguma forma, indi-ciar), com a emergência de definições
atomísticas, triviais, e com o apagamento ou a diluição
de ob-jectivos relevantes como os que se relacionam com as atitudes e
os conhecimentos relacionados com o livro e a leitura: "The teacher
concentrates on the skills seriatim and in so concentrating tends to lose
sight of the whole of which they are the parts. As a result students concentrate
on subskills but seldom on the central skill, making meaning of a text"
(Purves & Niles, 1984a, p. 10).
Ainda assim, o quadro não parece ser absoluta-mente claro. Um estudo
da autoria de Ana Mª Maga-lhães e Isabel Alçada (1993)
orientado, entre ou-tros objectivos, para a identificação
da "percenta-gem de leitores entre os alunos dos diferentes ní-veis
de escolaridade", dos "tipos de livros que os jovens leitores
preferem", da "situação da leitura no quadro de
actividades de ocupação dos tempos li-vres", dos "factores
estimulantes do prazer de ler", dos meios de que se servem os professores
e os alunos "para promover o amor aos livros" (p. 18), possibilitou
a obtenção de dados que vão ao arrepio de algum senso
comum acerca desta questão, embora as suas conclusões devam
ser relativizadas em função de algumas características
da amostra e de alguns procedimentos metodológicos (cf. Castro,
1995b). Os dados apresentados revelam a leitura de livros e, sobretudo,
de jornais e revistas como práticas tendencialmente preteridas
na ocupação dos tempos livres pelos jovens inquiridos; mas
a infor-mação obtida configura, ainda assim, uma atitude
positiva para com a leitura, uma elevada frequência de leitura e,
congruentemente, um elevado número de livros lidos, factos que
levam as autoras a afirmar que seria "injusto considerar que as novas
gerações rejeitam liminarmente a leitura" (p. 35).
Mais recentemente, foi entre nós publicado, da autoria de Inês
Sim-Sim e Glória Ramalho, um outro trabalho, de contornos diferentes,
integrado num projecto internacional - Reading literacy; este es-tudo,
através de uma prova de "literacia" e de questionários
sobre contextos, realiza uma caracte-rização do desempenho
dos estudantes portugueses do 4º e 9º anos da escolaridade ao
nível da compreen-são da leitura. Os resultados, considerados
con-trastivamente com os obtidos em outros contextos nacionais, permitiram
concluir que na população constituída pelos alunos
do 4º ano de escolaridade "a média global nacional [
]
situa-se muito próximo dos valores esperados tendo em conta o nível
de desenvolvimento do país e, claramente, abaixo da média
internacional"; ao invés, na população do 9º
ano da escolaridade, "a média global de desempenho [
]
é superior à média internacional e acima do va-lor
esperado na base do nível de desenvolvimento" (Sim-Sim &
Ramalho, 1993, p. 19).
Leitura, escrita, investigação
Aqui chegado, proponho-me entrar mais directa-mente em outras problemáticas
delimitadas pelo tí-tulo deste texto, concernentes à delimitação
do(s) objecto(s), dos objectivos e das estratégias de in-vestigação
no âmbito da leitura e da escrita esco-lares. Começando por
precisar um aspecto que me pa-rece central: a escassez de conhecimentos
sistemá-ticos, estruturados acerca do que, nestes campos, se passa
hoje nas nossas escolas. Devendo-se anotar a emergência de sinais
que apontam no sentido de algumas mudanças, sobretudo em virtude
do crescente número de dissertações de mestrado e
doutoramento que elegem a leitura e a escrita escolares como ob-jecto,
a verdade é que, sobretudo se encararmos aquelas práticas
enquanto práticas escolares, somos levados a concluir pela escassez
referida. E este é um ponto que me parece decisivo e que se prende
com a tentativa de definição do objecto de investigação
(e, logo depois, de intervenção e inovação)
que me proponho agora realizar.
O objecto que procuro delimitar é um objecto escolar, um objecto
para cuja especificidade con-tribuem os contextos espácio-temporais
em que as práticas de leitura e escrita têm lugar, os sujei-tos
que nelas intervêm e as suas concepções, os textos
que as regulam, assim como as inter-relações de todos estes
factores. E esta referência a um contexto especializado parece-me
tanto mais neces-sária quanto por vezes se tende a fazer substituir
à leitura e escrita escolares uma sua representação
descontextualizada; o estudo das práticas escola-res, se envolver
a amputação de dimensões constitu-tivas do próprio
contexto em que têm lugar, fica naturalmente afectado de modo irreversível.
No sentido de melhor precisar a perspectiva que aqui adopto, proponho-me,
agora, equacionar a configuração da leitura escolar, acentuando
o seu carácter colectivo, regulado, interactivo, contex-tualmente
constrangido, e inventariando um conjunto de dimensões e factores
que pode ser importante considerar.
Comecemos por interrogar aquilo que se passa quando se lêem textos
nas aulas: encontramos aqui um amplo conjunto de leitores a interagir
verbal-mente sobre ou a propósito de um texto; observamos uma prática
de interacção condicionada por outros textos que estabelecem,
de forma mais ou menos pre-cisa, os limites daquilo que pode ser dito
e o modo como se pode dizer; temos uma situação de comunica-ção
quase invariavelmente regulada por princípios de avaliação.
As características desta situação contraditam violentamente
outros modos, mais "natu-rais", de relação com
os livros, seja a leitura que se faz em casa, num banco de jardim ou na
solidão de uma biblioteca. O que nestes outros casos se joga é
uma transacção de sentidos em que os únicos limites
são os do texto e os do leitor, em que a intersecção
entre o mundo do leitor e o mundo do texto torna possíveis os pensamentos
mais íntimos; é uma situação em que a visão
do mundo do leitor, naturalmente também configurada por outros
textos, pode ser efectivamente convocada em função dos seus
pontos de vista, objectivos e interesses da leitu-ra. No contexto pedagógico,
a fractura da dimensão privada da leitura provocada pela intromissão
do público cria efeitos incontroláveis e dificilmente previsíveis
na relação com os textos.
Não vale a pena, por outro lado, escamotear as diferenças
de poder e controlo entre os sujeitos sobre aquele contexto e as práticas
que o constitu-em, traduzidas, desde logo, em diferentes graus de legitimidade
dos produtos de compreensão - as lei-turas não têm
todas o mesmo valor, não por causa da sua qualidade intrínseca,
mas, antes de mais, pelas características da fonte. A troca de
sentidos à volta do texto surge assim duplamente afectada: pela
publicitação do que é privado e pela incontor-nável
instituição de uma leitura legítima de que o professor
é o depositário privilegiado. Aliás, em última
análise, pode não ser o professor a fonte primeira do significado
dos textos, pois também as suas leituras são filtradas por
outras instâncias textuais como os textos reguladores oficiais e
os produtos da crítica textual; o contexto pedagógico é,
muitas vezes, caracterizado por uma sobre-representação,
ainda que implícita, de metatextos.
Neste quadro, não será muito deslocado dizer que a leitura
escolar não é mais do que um ersatz da leitura.
Orientado para a delimitação de um objecto de investigação,
generalizarei agora ao campo da es-crita.
Quando falamos de ensinar e aprender a ler e a escrever, naqueles que
são aqui os nossos contextos de referência, falamos de acções
intencionais, rea-lizadas em contextos institucionais, envolvendo su-jeitos
que se posicionam e são posicionados de modo diferenciado. Referimo-nos
a acções orientadas para o desenvolvimento das capacidades
associadas à pro-dução e reconhecimento de textos
verbais. Falamos também de acções com objectivos
instrucionais, no-meadamente, a aquisição de conhecimentos
que, so-bretudo nos domínios da língua e do sistema semió-tico
literário, são considerados relevantes. Visan-do objectivos
amplos, envolvendo sujeitos com dis-tintas orientações para
o significado, realizadas em contextos afectados por múltiplos
constrangimen-tos, estas acções apresentam-se-nos como radical-mente
complexas.
Constituídas por este amplo conjunto de facto-res, a sua materialização
é predominantemente ver-bal, sendo as práticas pedagógicas
configuradas por e sobre processos verbais. Por isso, quando procu-ramos
definir os objectos de investigação no domí-nio da
leitura e da escrita escolares dificilmente podemos evitar a consideração,
desde logo, das prá-ticas de transmissão/aquisição
de competências que têm lugar na aula e na escola - o conjunto
das prá-ticas discursivas que realizam a transmis-são/aquisição
de atitudes, capacidades e conheci-mentos associáveis à
leitura e à escrita; depois, dos textos que imediatamente regulam
o que se passa no interior da sala de aula, textos que têm como
destinatários primeiros ora os alunos ora os pro-fessores - os
programas, os métodos, os manuais, as práticas historicamente
identificáveis; e, ainda, dos textos de carácter metadiscursivo,
por exemplo, os que têm por objecto as próprias práticas
pedagó-gicas. Também as características dos sujeitos
en-volvidos (alunos e professores) em termos dos seus hábitos e
atitudes, práticas e capacidades serão certamente um objecto
relevante de investigação.
Este corpo de objectos pode ser expandido de forma a incluir as actividades
escolares, realiza-das ou não no contexto da aula, que envolvam
práti-cas de leitura e escrita ou estejam orientadas para a sua
promoção. As representações dos pais acerca
das práticas escolares, dos hábitos dos alunos e das suas
próprias práticas, as condições da leitura
escolar - os fundos bibliográficos, a utilização
dos materiais, as experiências realizadas no quadro da dinamização
das bibliotecas e mediatecas escola-res são outros objectos relevantes.
E no caso espe-cífico da escrita, para lá de objectos como
a ca-racterização dos produtos resultantes da actividade
de produção dos alunos, as representações
que do processo de escrita e da aprendizagem da escrita são produzidas
pelos agentes e instâncias de regu-lação das práticas
pedagógicas, as atitudes para com a escrita traduzidas nos comportamentos
escola-res dos alunos, as práticas de escrita através do
currículo, os contextos escolares de produção do
escrito são vertentes possíveis de análise que jul-go
particularmente importantes.
Se aceitarmos a validade da
delimitação do ob-jecto atrás proposta, há
um conjunto de questões de investigação que é
legítimo colocar. A selecção de objectos como aqueles
que atrás referi, implicitam como linhas de orientação
da pesquisa a formulação de problemas do tipo: como se procura
desenvolver as competências de produção e reconhecimento
ver-bal, oral e escrito? Como se tenta promover atitu-des favoráveis
para com as práticas de leitura e escrita? Qual é o corpo
de conhecimentos cuja cons-trução se procura favorecer?
Que materiais de apoio são utilizados e como são utilizados?
Qual o signi-ficado dos textos reguladores oficiais? Quais são
as características dos produtos resultantes das práticas
escolares?
Estas perguntas - generalizações de objectivos de investigação
- são colocadas na base de dois pressupostos: a afirmação
da relevância do conheci-mento das práticas efectivas como
condição para a intervenção sobre os contextos
e a intenção de as-segurar uma intervenção
significativa sobre esses mesmos contextos; tratar-se-ia então
de criar con-dições que permitissem cumprir um programa
que al-guém formulou em termos que tenho por exemplares:
A língua [
] é
o capital simbólico por excelência de uma comunidade. É
um capital, porém, desigualmente repartido, e esta desigualdade
impõe limitações gra-ves à capacidade de entendimento,
de expressão e de comunicação de muitas mulheres
e de muitos homens e, por conseguinte, cerceia a liberdade e a participa-ção
política de muitos cidadãos. Só a educação
e a escola [
] podem tornar menos desigual e menos in-justa a repartição
deste capital simbólico e dar as-sim aos jovens a possibilidade
de virem a ser homens e mulheres mais dialogantes, mais livres, mais soli-dários
e mais responsáveis (Aguiar e Silva, 1989, p. 18).
As questões antes colocadas
obrigam a conside-rar um conjunto de problemas que genericamente po-demos
situar no âmbito do que poderíamos designar por estratégias
de investigação. Discussão que, do meu ponto de vista,
deve ser referida aos pontos seguintes: a adopção da perspectiva
de investiga-ção, a relação entre a observação
e a intervenção e os problemas de disseminação
dos resultados da in-vestigação e da inovação.
Se aceitarmos a definição de objecto e objec-tivos proposta
nos pontos anteriores, a geração e desenvolvimento de projectos
de investigação pode ser predominantemente orientada por
uma das pers-pectivas seguintes:
- a produção de conhecimento no âmbito de dis-ciplinas
científicas constituídas ou em processo de constituição,
obedecendo a uma lógica de produção, validação
e circulação própria do campo científico;
- a produção de um conhecimento que traduza uma actividade
de reflexão dos profissionais da educação sobre a
sua própria prática, de potencia-ção dos seus
níveis de conhecimento e da sua capa-cidade de intervenção
sobre os seus contextos de referência.
Tratar-se-ia, neste último caso, de colocar o trabalho de investigação
ao serviço da expansão dos limites da intervenção
dos profissionais, procuran-do-se a ultrapassagem de uma concepção
do professor como técnico especialista que aplica com rigor as
técnicas do conhecimento científico, assim se evi-tando
a redução da "racionalidade prática" a
uma simples "racionalidade instrumental" (Pérez Gómez,
1992, p. 96). Aquilo que por esta via se procuraria seria, em última
análise, uma transformação dos professores em observadores
qualificados das suas práticas, por este meio se enfatizando a
vertente da autoformação; por este processo se visaria tam-bém
a superação do que, pela aplicação de um conhe-cido
conceito de B. Bernstein, poderíamos designar como classificação
forte entre os produtores de co-nhecimento educacional no campo científico
e os su-jeitos sobre cujas práticas, no campo pedagógico,
aquele conhecimento é construído. Tratar-se-ia, em suma,
de reequacionar as relações entre o campo da prática
educativa profissional e o campo da prática científica,
evitando "novas tutelas, que percepcio-nem o universo da prática
como um espaço de aplica-ção da produção
teórica" (Nóvoa, 1991, p. 47).
Uma questão central na problematização das es-tratégias
de investigação e inovação consiste na discussão
das relações entre a observação e a in-tervenção,
vertente que aqui considerarei brevemen-te. Há um princípio
geral que me parece relevante - o da necessidade do reforço das
relações entre a componente descritiva e a componente de
interven-ção, de forma a esbater o grau de arbitrariedade
desta e a estabelecer bases sólidas orientadoras da relação
entre a produção do conhecimento e a sua derivação
reguladora. A definição das áreas de in-tervenção
e das formas que esta pode assumir são tarefas desejavelmente realizáveis
no quadro da te-oria (de uma teoria), já que só no seu âmbito
se pode pensar de uma forma consistente e global o si-gnificado de ensinar/aprender
em contextos educati-vos formais.
Este exercício, quando se tem em conta o ob-jecto que aqui venho
considerando, envolve como de-safio maior o da articulação
produtiva de contribu-tos diversificados, através da conjugação
de sabe-res diferenciados relativos à história e condições
de ensino de uma dada disciplina, às disciplinas da especialidade
que têm como objecto os conteúdos a transmitir/ adquirir,
às disciplinas que têm como objecto os contextos e os processos
de ensi-no/aprendizagem. Tratar-se-á, em síntese, de pensar
novos problemas: descrever os contextos e os textos especializados que
configuram as práticas de trans-missão e aquisição
de competências, criar as condi-ções para a clarificação
dos sentidos destes pro-cessos e desenhar sentidos possíveis para
a sua mo-dificação. Em qualquer dos casos, o que se faz
sen-tido assegurar é que a intervenção seja, na medida
do possível, não arbitrária, estabelecendo-se para
isso estreitas relações entre esta e a observação.
Neste sentido, haverá sempre lugar à contradição,
à polemização.
Se considerarmos especificamente os projectos de inovação,
há problemas que se justifica colocar, especialmente relacionados
com a sua compreensão no quadro dos processos de mudança
no interior do sis-tema educativo; problemas ligados à concorrência
com outros percursos de inovação, à recepção
e aos modos de generalização local dos resultados e à
disseminação da informação em contextos mais
glo-bais. Dificuldades a que não são alheias as carac-terísticas
próprias dos processos de inovação: "A imprevisibilidade
e a singularidade são [
] carac-terísticas das inovações
produzidas na periferia dos sistemas" (Correia, 1989, p.36).
Por exemplo, na situação concreta que hoje vi-vemos em Portugal
é visível, no que diz respeito às práticas
pedagógicas, uma corrente particularmente forte, com origem no
centro do sistema, tendente a, naquilo que é obviamente uma expressão
paradoxal, impor a inovação. A ausência de uma tradição
con-sistente no campo da inovação de matriz local e a frequente
inexistência de condições físicas e huma-nas
de desenvolvimento de projectos de inovação tornam problemática
a concepção, a concretização e a difusão
local de tais projectos. Dificuldades a que acrescem tarefas por vezes
insustentáveis para quem neles se encontra envolvido: a necessidade
de assegurar condições de coexistência com a inovação
que procede do "centro" e/ou com a tradição; a
ne-cessidade de integrar, nas práticas de inovação,
os contextos institucionais.
Características contextuais agravadas pela quase inexistência
de meios de transmissão especi-ficamente vocacionados para a divulgação
dos pro-jectos de inovação no âmbito da leitura e
da escri-ta. São escassas em Portugal as publicações
que possam servir a difusão de estudos deste teor; por outro lado,
em Congressos, Seminários e Encontros científicos, e porque
nos encontramos sempre peran-te lógicas de produção
e difusão não coincidentes, nem sempre é pacífica
a convivência entre as orien-tações a que nos vimos
referindo, nem sempre há es-paços suficientemente abertos
e definidos para a apresentação e divulgação
destes tipos de traba-lhos.
Notas
(1) Kenneth Goodman nota, a este propósito, a improbabi-lidade
de alguém inquirido sobre os seus hábitos de leitura neles
incluir objectos como relatórios, me-morandos, instruções,
etc.; cf. Goodman (1984).
(2) Kate Moody coloca o problema da relação entre o con-sumo
de produtos televisivos e o consumo de livros nos termos seguintes: a
leitura requer de quem a re-aliza uma certa continuidade perceptual para
percor-rer os textos, linha após linha, enquanto a televi-são,
ao contrário, habitua a mente a curtos takes e não à
continuidade exigida pela leitura - neste qua-dro, focar e prestar atenção
ao impresso torna-se um esforço não natural para o telespectador
condiciona-do (cit. por Purves & Niles, 1984a, p. 5).
(3) Um inquérito realizado em França, em Fevereiro de 1987,
entre 500 estudantes de 7 a 14 anos, mostrava que os "bons leitores",
aqueles que lêem em dois me-ses pelo menos cinco livros, vêem
tanta televisão quanto os maus leitores [Enquête Sedes-Télérama,
Ou-tubro 1987].
(4) Uma análise detalhada destas orientações pode
ser encontrada em Castro (1995a), designadamente no ca-pítulo III.
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